voz
cenário, diários, fragmentos

aphantasia

Lullaby

os disparos na inquietude são precisos
esta não é uma lullaby
ar frio matutino me cai sobre o granito

– você já teve aquele sonho
aquela inquietação idílica de ver-se decaída ao chão sido disparos contra a íris vazando hedionda cura para a incurável oscilação de oceanos
e na cuca tamanho rombo vermelho gota escarlate acontecendo
gotejando
gotejando
gotejando
– desta vez
[não podemos] te encontrar mais – respondeu sorrindo amarelo de estranhamento
onde você esteve (eu perdi e sempre perco você facilmente
nesse mesmo cais há um navio – igual no filme de bergman,
entro
estamos procurando as falhas e o buraco por onde me espera sair
escapou e evitei os navios por tanto tempo e ficaste aqui ficou
e lá fitando o rancor que deixei sobre a mesa encardida de cigarro e sua pelerine
a rouca entrada obstruída
se te abandona a asfixia
levanto e faço acender um abraço invisível
você nunca me permite afundar nos círculos da sua deserção
estás sempre sozinha e apedrejada e por espanto eu te imito

consegue mensurar esses acontecimentos que jamais serão descritos
aphantasia
se finca o riso alucinado nos enquadramentos do teu semblante
não tenho destreza para as falas que poderiam acalmar
foi puro explosivo das almas em trituração
e sei, quem um dia, ouvi cantar transbordando
M. me disse durante a janela do ônibus entardecendo no abismo
M. esteve no balanço a embalar a lullaby
que faz ela perder o cais porque nós dois sabemos esses momentos indefiníveis
de vagar pelo mundo embebido
amarguramento da estação laranja a sair e a entrar nos semblantes
o rosto de T. relembra a memória de um quadro expressionista
ouço a náusea do espelho
o prédio cadáver parece penetrar os óculos escuros de T. e ela lentamente observa a áurea desse universo emudecido
o meu espírito antagônico não pertence a lugar nenhum senão às batalhas que elegi como prelúdio das fantasias vestidas em mim
permanente
se me abandono significa que nunca ele esteve por completo
mensurar esses acontecimentos
 

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diários, fragmentos

(L. deita na cama o asco que pareço causar

tudo em mim está podre e delinquido
esforço para explicar
o ponto sem-retorno, a fala é a emoção já exausta)
não se toma de alguém a sombra diante da insuficiência

é porque não se reconhece
e não existe mais sujeição
quando na erradicação do afeto
há um momento em particular que define o aguaceiro
– desce a todo ímpeto, levando consigo as memórias
derretidas pelo calor da desesperação
– que os traumas são rios de espasmos a escorrer
tentar anular o sofrimento tempestivo que insurge
não o sei e jamais terei a totalizante sabedoria de vida da qual tanto se fala

quando pergunta finjo ter dentro a elevação das coisas, a beleza
não mata a fome – finjo compreender a origem dessa sujeição
da qual tanto se orgulha

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matar a fome apenas solapa a guerrilha febril e necessária
a voz paralela não obedece limites e aceitar esse redemoinho sangrento é a declaração de não-paz, afirmar a força destruidora nos habitante:
sucumbir às artimanhas da guerra histérica, mesmo estando em pedaços, jamais extraditar o espírito dilacerante
se comunica apenas com o desespero

a fala e sua voz e suas palavras agudas – violino ensandecido atravessando a montanha-borda
olhar-fônico reverberando picos em que o difícil encontro congela na falhura das mãos separadas

voz paralela.

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cenário, pensamentos

Buscando alento no que nunca se pode tocar. As respostas surgem sempre na hora em que são derrotadas as facas

– o enlevo que sente moldando as trincheiras da própria queda

assim é o quarto submerso
invólucro de vômito,
estado de sítio e aniquilação
ao virar-se vem a marteladas na cabeça a utopia impiedosa
se decide viver

então esse viver é a completa defecção
se decide morrer,

o quarto cessa a morte
torna-a tão viva e similar à vida

o desejo volta
se voltando uma vez mais e constantemente para a luz da visão
abandonando o pálido ou a sombra, pois essas duas nuances nascem do choque impossível

O que nasce no intestino não enxerga; sem olhos, afogado em lâminas, o quarto submerso jamais ouve ou come
a comida somente realça a matança que ele produz

a canalização dos sonhos triturados e o combate ao tempo
a luta pela liberação,
e, logo em seguida, o aprisionamento voluntário

O quarto submerso não é nada do que nos foi dito
nunca vai ser

O quarto submerso.

En passant
difusão, pensamentos, Sem categoria

cartas em branco

todo processo de exorcismo é o processo da dor intraduzível. 

a ferida que perpassa o ventre, escala-o e queima os nervos tal como veneno a subir pela garganta adoecida
todo ato de escrita é o abismo a olhar-se dos espaços onde se absorve treva e luz, colidindo no que restou dos parênteses abertos, e desses não haverá solução aparente
toda ato de escrita é falho, e somente reflete a nossa condição miserável diante do eco que não possui morada ou anatomia
por que escrevo e por que interrogo?
por que oferto o meu corpo à dissolução, à figura terrível, que persegue?
doo o objeto que, até então, parecia indispensável

cartas em branco sondam o abismo desde a infância.
espaços de falso-suicídio
– espaço de quem já partiu, mas lhe permanece o objeto. A perda múltipla das perdas, o buraco
por que se leva às últimas consequências esse corpo?
a figura acompanha a chacina; ela acompanha desde as ruínas.
a fumaça mortífera, os incensos de odor nenhum, a vitalidade aguda e os incêndios habitam esses espaços de falso-suicídio,
derivações
essas derivações deságuam no suicídio próprio.
as cartas em branco leem a si mesmas porque de ninguém necessitam, e disso sempre se tirou uma solução

carta sem destino

A sufocação espreita todo o meu corpo; jamais fui arrebatado por tamanha paixão e fervor de espírito, carne e apoplexia.
As horas que se passam. A vã idealização, o chacoalhar de meus ossos às vésperas de um colapso total.
Toda a centrifugação do ardor que sinto em direção à sua imagem, a simples memorização de aromas e cores, correntes de desejo e repulsão juntam-se ao meu grito incessante.
Nunca pensei encontrar a vulnerabilidade que mantinha a salvo num porão mofado, escoltado por fantasmas.
Quando penso, e se penso diretamente em quem, penso de forma irremediável nos olhos de verde-angústia, de pura hipnose convulsa. Em gestos dóceis de braços de despedida, na voz crua e sólida como o desprender do gelo, derretendo-se pouco a pouco.
Nenhum gesto, nenhum som violento de prazer ou silêncio letárgico escapam de nossas bocas entreabertas.

Noite eterna
Velar alguém.
Velar um corpo que dorme aos repiques noturnos, aos sons que despencam do infinito noturno; velar um rosto que dormita pacificamente.
Nos reacende o sentimento repartido em dois.
A iminência da morte
E a pacificação do ato de velar um corpo mal coberto reacendem a perspectiva – uma perspectiva que às vezes tosse em meio ao hálito que se alimenta
Visão sem cor de torturas.

Dia eterno
A amplidão
Se parece distante
A queda de braço entre o distanciamento, os braços fechados por detrás da face
o rosto sem emoção, as pálpebras, a difícil voz se eleva

na avenida se cruzam almas e nas almas a avenida imóvel mas
um adeus, um torpor, um grito de perda
Gargalhos e passos, moedas a galopar,
veículos.
O exterior nunca foi o mesmo a partir daquele ocaso,
Ensolarado
Em que ouvi a mudez, maciça, o difícil encontro,
Navalhada de sangramento nos intervalos dos caminhantes
Crepúsculo dos dias.

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difusão, pensamentos

O raio exterior

in-ser

Cada gesto, um batimento cardíaco. Cada respiração, uma navalha indizível. Os dias se seguem com uma rapidez isenta de oxigênio. Observar a si mesmo através de um espelho esmagado por si próprio, ajustar a coluna, torcer a clavícula, injetar a preciosa peça que é a verdade. A mais dobrável, a mais propagada, numerada, declarada, injetar o que chamam de verdade, injetar o que chamam de verdade, injetar o que chamam de verdade,  injetar o que chamam de verdade

Cada olhar, um abismo que exaspera. Observar a si mesmo através dum espelho em prisma esmagado por ele próprio, ajustar a coluna, cortar a cabeça, beber o sêmen!

Observar a si mesmo através dum espelho transversal, cofre ensanguentado que se despenca, injeta a verdade, que se torce, ornamenta a face

Ou se vive em pleno ponto sem-retorno ao buscar a marcha-ré, e morre e contempla, e vive ao viver buscando-se na catástrofe.

Estando parado! Estando imóvel ao estar cercado! Correndo, não me rendo! Parado, desfio! Dentro dos ângulos a imagem passa a nos refletir já dissecados, um ângulo desaprende e o outro reflete a imagem de um conhecido indo direto à boca, tal mel que nunca vence; uso-a e assim venço, não venço a quem ousa dar-me o traço pois é sempre o Outro que nos força a realidade:

Paralisia tal ponte levadiça encapuzada de guilhotina, tal rei déspota sendo enforcado, tal cadáver apodrecido sentado e em pé. É o som estridente da renúncia a rolar pelo convés, do corpo como ele é, defeca, fede, implora, necessitando de auxílio eterno, tal porco prestes a parir!

Ou se aprende a contemplar a catástrofe magnânima que é viver na paralisia, ou se morre em tal paralisia

Do corpo como ele é, defeca, fede, implora, urra; cofre ensanguentado que se despenca, que se torce, ornamenta a vista

 

 

 

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distração, prosa

medusa

aos olhos, às lágrimas
muito provavelmente: tudo começa a se transpor.
se vê obrigado a tornar-se uma mera memória, um fantasma realista que aceita o seu degredo ao mundo da transposição: um exorcismo anárquico: emparedado diante da profusão de olhares também emparedados –

vê a monstruosidade do que não é – compelido a sobrepor à imagem uma outra forma disforme.

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pensamentos, sumário

Novos textos, ensaios e obras; às vezes similares, às vezes distintos:

eu próprio me debato contra as minhas autocríticas pré-estabelecidas, ah, eu me debato contra algo que me é naturalmente prazeroso, sádico e vil! uma mélange de enredos talvez naïf, obviamente experimentais, com uma predominância à abstração: talvez formalistas

 

CARRO-CHEFE:

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avessas

ora avanço, ora estremeço e morro; nunca irei ceder – morro, mas morro em plena integração; escrevo pois me sinto sufocado, escrevo pois quero avançar sobre a neblina acachapante acima do prédio que está sempre em chamas – ardendo sem exceção; ensaio porque sangro de qualquer forma e, se sangro, não morro de lassidão – ensaio pois talvez e talvez consiga delinear um sentido perante a absurdidade que é ser e existir ao mesmo tempo – demolir todas as certezas e depois reconstruí-las em uma estrutura insone, sonora e subjetiva, que alcance quem puder e quiser.  quem ousar se esvanecer e liberar a si mesmo junto aos meus escritos; exijo apenas esta sentença: não haverá identidade firme, esqueça!, esqueço, não haverá identificação; é um quebra-cabeça cuja fabricação personalística se desmancha como glacê, e integra inúmeras personagens como as placas tectônicas.

jamais serei lido, ah, a literatura é uma múmia antiquada – eu sou seu filho patético e torpe, odeio a revolução – abomino tudo o que se espelha no futuro, sufocando as perspectivas do presente; um dia todos irão morrer, um dia eu vou morrer, e isso é aterrador.

ah, Lírio, o dia ensolarado me faz querer gritar

 

 

a bordo

En passant