Safras

Safra e Inspirações

2018

 

maio e novembro de 2017

(+ releituras)

  • As Flores do Mal – Charles Baudelaire (LIDO)
  • Solaris – Stanislaw Lem (50%)
  • A jangada de pedra – José Saramago (?)
  • Broquéis – Cruz e Sousa (LIDO)
  • Poesias Pesadas – Marcio Jung (20%)
  • Nietzsche e Para Além de Bem e Mal – Oswaldo Junior (?)

novembro

(+ releituras)

  • A Maçã no Escuro – Clarice Lispector
  • Mulher com Brânquias – Patricia Baikal
  • Nós – Yevgeny Zamyatin
  • A Cidade Sitiada – Clarice Lispector
  • O Informe de Brodie – Jorge Luis Borges
  • O Conto da Aia – Margaret Atwood

 

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difusão, pensamentos

O raio exterior

in-ser

Cada gesto, um batimento cardíaco. Cada respiração, uma navalha indizível. Os dias se seguem com uma rapidez isenta de oxigênio. Observar a si mesmo através de um espelho esmagado por si próprio, ajustar a coluna, torcer a clavícula, injetar a preciosa peça que é a verdade. A mais dobrável, a mais propagada, numerada, declarada, injetar o que chamam de verdade, injetar o que chamam de verdade, injetar o que chamam de verdade,  injetar o que chamam de verdade

Cada olhar, um abismo que exaspera. Observar a si mesmo através dum espelho em prisma esmagado por ele próprio, ajustar a coluna, cortar a cabeça, beber o sêmen!

Observar a si mesmo através dum espelho transversal, cofre ensanguentado que se despenca, injeta a verdade, que se torce, ornamenta a face

Ou se vive em pleno ponto sem-retorno ao buscar a marcha-ré, e morre e contempla, e vive ao viver buscando-se na catástrofe.

Estando parado! Estando imóvel ao estar cercado! Correndo, não me rendo! Parado, desfio! Dentro dos ângulos a imagem passa a nos refletir já dissecados, um ângulo desaprende e o outro reflete a imagem de um conhecido indo direto à boca, tal mel que nunca vence; uso-a e assim venço, não venço a quem ousa dar-me o traço pois é sempre o Outro que nos força a realidade:

Paralisia tal ponte levadiça encapuzada de guilhotina, tal rei déspota sendo enforcado, tal cadáver apodrecido sentado e em pé. É o som estridente da renúncia a rolar pelo convés, do corpo como ele é, defeca, fede, implora, necessitando de auxílio eterno, tal porco prestes a parir!

Ou se aprende a contemplar a catástrofe magnânima que é viver na paralisia, ou se morre em tal paralisia

Do corpo como ele é, defeca, fede, implora, urra; cofre ensanguentado que se despenca, que se torce, ornamenta a vista

 

 

 

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distração, prosa

medusa

aos olhos, às lágrimas
muito provavelmente: tudo começa a se transpor.
se vê obrigado a tornar-se uma mera memória, um fantasma realista que aceita o seu degredo ao mundo da transposição: um exorcismo anárquico: emparedado diante da profusão de olhares também emparedados –

vê a monstruosidade do que não é – compelido a sobrepor à imagem uma outra forma disforme.

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pensamentos, sumário

Novos textos, ensaios e obras; às vezes similares, às vezes distintos:

eu próprio me debato contra as minhas autocríticas pré-estabelecidas, ah, eu me debato contra algo que me é naturalmente prazeroso, sádico e vil! uma mélange de enredos talvez naïf, obviamente experimentais, com uma predominância à abstração: talvez formalistas

 

CARRO-CHEFE:

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avessas

ora avanço, ora estremeço e morro; nunca irei ceder – morro, mas morro em plena integração; escrevo pois me sinto sufocado, escrevo pois quero avançar sobre a neblina acachapante acima do prédio que está sempre em chamas – ardendo sem exceção; ensaio porque sangro de qualquer forma e, se sangro, não morro de lassidão – ensaio pois talvez e talvez consiga delinear um sentido perante a absurdidade que é ser e existir ao mesmo tempo – demolir todas as certezas e depois reconstruí-las em uma estrutura insone, sonora e subjetiva, que alcance quem puder e quiser.  quem ousar se esvanecer e liberar a si mesmo junto aos meus escritos; exijo apenas esta sentença: não haverá identidade firme, esqueça!, esqueço, não haverá identificação; é um quebra-cabeça cuja fabricação personalística se desmancha como glacê, e integra inúmeras personagens como as placas tectônicas.

jamais serei lido, ah, a literatura é uma múmia antiquada – eu sou seu filho patético e torpe, odeio a revolução – abomino tudo o que se espelha no futuro, sufocando as perspectivas do presente; um dia todos irão morrer, um dia eu vou morrer, e isso é aterrador.

ah, Lírio, o dia ensolarado me faz querer gritar

 

 

a bordo

En passant
prosa

naivve

de repente, o reflexo desaparece. vozes imponentes se impõem sobre a névoa marítima. o grande cérebro, o aríete que navega, forçando a entrada – traçando o suplí­cio – um a um: ah, um a um!

a pêssego maçã, tangerina romã
de lavanda sanguínea e fósforos
madressilvas efervescentes, óleos de alucinação, torrentes,

cortantes – ele, com a boca seca, entra a fora, sai a dentro – cava sonhos e oblitera terrenos!

esses tripulantes tomam de assalto a embarcação, piratas sádicos, santos maniqueístas, aberrações racionalistas e ápices tangerínicos de vaidade, tensão e aparência.

devoram romãs e repentem a si mesmos, afirmam tempestades
dar-nos-ia o consentimento

destroem os barcos de cantalupo e sândalo, cetim, ramos e remos de Armadura carmim: lançados a alto-mar: iremos nos afogar.

 

põem assim, desmancham, queimam a pele peluda da carne osso, e ossatura
mim, mim, mim, cintura
corrigir a postura
põem em causa, abraçam carapaça
tortura a carcaça
tropeço,
quando Ela exigiu o avesso – determinou aceitar todavia Ele não consentiu
oco
cada mofo, corpo, é-lhe dado um partitivo ocre e vermelho e negro e ácido
um a um – um soco no ventre!

O navio que jamais navega

En passant
pensamentos

AnneSexton.png
tem acontecido, ultimamente, uma grande evolução da minha escrita poética. o que era parco de sentido verdadeiro tornou-se mais amplo e talvez mais sólido. mesclando o confessional dos poetas norte-americanos, a dor e satanismo de cruz e sousa e o sórdido repulsivo à carcaça humana de monsieur augusto dos anjos eu me aprimorei. há caminhos que requerem sacrifícios e o meu último destinou-se à expulsão dos meus sonhos oprimidos. chega de idealização inútil, chega de fantasias melodramáticas relacionadas a pessoas que não merecem tais pulsões. sim, pulsões. sexuais? talvez. um novo « eu » está para ser parido. um eu-estável. me cansei das minhas instabilidades que só fazem ruir o alicerce das minhas relações de longa data. saúde! à notre santé!

poésie // mental illness

En passant