difusão

O Manequim da Esquina Fechada

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perfume noturno

Viajam as melodias
numa grande aviação
e no interior ardem
A margem
tudo corre desesperadamente
capturar
o momento se desfaz
cavar nas areias
as emoções como líquido-gás
a garoa por dentro
lentamente
se enleia
a cova, a boca
embebedá-la em mim
Nas músicas onde vivem os sintomas
e no aroma da Rua trêmula
absorver meu fim
da Tua visão assim se elevar
de um ponto qualquer caindo,
O cabaré da Avenida Rio Branco

Da janela, Carmem e Mona encaravam a finitude dos dias.
A noite não parece mais a harmonia extravasada do final das tardes quando viviam e assim podiam dizer que existem.
Mas – o estrangulamento – víbora – reaparece:

– Fala do mesmo modo sobre as coisas do Universo; e ainda importa perguntar e falar e ouvir? Esse é o seu vício e seu defeito e tanto melhor que me deixe ser estraçalhada pelo trem que jamais passará pela gare de novo; tanto melhor que me veja sucumbir às suas drogas na concha abandonada. Suas mansões decaídas, amordaçada, Aléxis pensava dizer.

– Quer dizer, combina o preto e branco mas o passado parece agora te rejeitar. Você foge, você fugiu, para dentro de alguém. Para um ruído… Não nos falamos desde aquele dia. « Porque as coisas são como são », dizia. « Se desse modo nasci, você não vai mudar jamais. »

– Sabia dessas condições em que a Vida esgota o Mundo?

– Não me fiquei. Deliraste no perfume banhado no submundo.
Você voltaria a mim, o cabaré da Rio Branco, você voltaria pra mim. De repente volto ao pretérito sendo única sensação livre da morte. No passado me encontro ainda viva.
« Sua paixão é mero prazer obsessivo pela memória. »

Desci as escadas de caracol; enquanto pisava no carpete desgastado cilíndrico com delicadas estrelas avermelhadas percebi que as aves do lado de fora voavam como se fossem um triângulo.  Formavam assim um sensual triângulo robusto de carne, veias e, acima de tudo, imensidão.
Continuei a descer. Eu jamais tinha visto uma escada tão disforme; suas hastes estranhas — era gigante e aterradora. Pensei em deixar mas algo me mantinha maravilhado e tonto. Em seguida me sentei no último degrau do caracol. Carmem chegaria daqui a pouco. Meus nervos trêmulos. O que pensariam? Bambina estava esbaforida; sua cabeça enorme e oval continha gigantes olhos esverdeados, apreciando a visão daquele homem vendado.
Amélia segurava uma garrafa de rum no outro lado da salinha subterrânea.

— Precisam soltar ele.

— O Pinheiro gosta disso; a Bambina vai cutucar a ponta da carne dele e só — Mona me repreendeu, secando o rosto na toalha preta.

– Tens medo. Tiveste medo quando

– Já matei alguém – dizia, sempre onipresente. Quem era, afinal, aquele stripper? Carmem o chamava de Pinheiro. Na garganta de Carmen, o pingente. Aquele pingente enlameado removido dos campos da Boca do Monte.

– Não tenho medo de morrer – Carmem estava roxa. Os seios eram recém-nascidos, os traços fugidios cresciam em meio à barba rala:

– Faz bem aqui.

Conciliava o exterior com o interior como fossem gêmeas separados. Explosões, uma pessoa incendiada corria, um assalto ocorreu na esquina. A jornalista ia beirando as faixas de pedestre e era visível o descontrole da população, às margens, lançavam às lojas molotov. Os jatos de água subiam, pichado o lugar encharcava.

Contar uma mentira
Primeiro – dizia o médico –
A tigela tinha se esvaziado
A tigela alguém furou a tigela

Da rua José Bonifácio? Passava por ali durante três anos seguidos e desejava que o ônibus me atropelasse assim que vinha em tamanha velocidade. Ele deseja viver, talvez, os pedestres se perguntassem abismados.
Tua cabeça é corrompida, morria aos poucos. Como se fala isso sem pronunciar desagradável? É desse jeito: abre bem as sílabas como se me chamasse; me encontre na praça rosada.

– Imaginando ser adorado secretamente.

« O vício, assim como o desprezo, se cultiva por intermédio de emoções mistas balançando entre psicose e êxtase. »

– O que você quer?  – pairava o forte cheiro de colônia cozinhando pensamento e relutância.

– Ela decidiu fugir – jogavam carteado e assim se entretinham; o jogo lúdico suscitava em ambos aquela lembrança de não apenas sobrevivência.

Mona e Pinheiro tinham ido pela primeira vez a Capão da Canoa.
Carmem odiava F. Pinheiro. Aléxis se via contente com o corpo mas seus traços a incomodavam.

Prometeram e juraram e diziam certamente a completude […]
Qual foi o seu espanto tendo em vista o mundo lhe parecia nublado sempre, o acorde das guitarras violentadas, o terror
Era gentil. Diziam:
Como se fosse um caco de vidro gentil rasgando a pele… Qualquer coisa menos fazia sentido pois o que Alexandre pensava sobre mim era verbo já inerte.
Alexandre ia e voltava. Tentava se fixar, muito tentava, numa dessas esmeradas tentativas prendeu o cabelo, pintou as unhas ele pintava, e disse às amigas na sala:

padede / o instante

embora as vagas sensações eliminem a tormenta, essa amnésia é lúcida; trapézio ensanguentado – costurar ao corpo a melodia

Não se busca. A gente perece no meio do caminho. Você busca e morre.
Deliberou agir. Foi tarde. Viram envoltante em tons incolores. Deliberou fugir. Como? Faria agora. E fez. Correu a mim delirando na voz das avenidas, eu a socorri, tinha se ferido.
A cidade do centro solitário desmergulha…

O Manequim da Esquina Fechada

Percebe o caminhar…
Eles passam passando como flechas fumegantes dos pratos do restaurante
Entrevejo uma silhueta marrom, o ponto de ônibus da rua Cercada alcança a velocidade dessa embriaguez enquanto no banco esquerdo vai, dormitando, a visão de uma mulher já saída pela porta
A cada movimentação se esvai a alma, a cada esquina um refletor
Você parecia mais jovem
No orelhão da rua Riachuelo há uma travesti em seus altos saltos, rouge face. Sua boca é jaspe:
Ela ruge perante o olhar faminto da civilização
Atrás do estacionamento se esconde, observante, a torneira pingando
Pessoa capenga, capacetes, filas de carros rasgando as estradas de cinza exaustão
Duas figuras conversando, gestos delicados, palavras que não irei ouvir
Corro, vivo, caem os andares da Avenida Rio Branco
Longessonante….
Subindo o parque de entroncamento…

– Quem podíamos ser – Mona pensa perguntar e silencia o grito vermelho;
No meio das multidões devorantes existe a imagem de um rosto de emoção perdida, parece cair ou desviar do edifício muito semelhante a uma esfinge esburacada
Tão penetrante é a sua estatura…
Giro e girando me acho abaixo do viaduto
Frescor da alcoólica tinta no convés transportado para o interior da estação
Adentra o nosso peito e onde posso estar já não sou, para onde fui me faltam respirações porque parado perante os Outros me volvo tonto…
Na semana passada, a gente tinha deitado ao sol na ferrugem dos trilhos do trem. Não sabia que partindo ficaria. Eu nunca ouvia qualquer notícia sua.

– Esmoreço… caminhantes percorrem aquilo que chamo de eu – o gosto se escapa das válvulas dos motores escorrendo pelo meu olho.

– Essa vida tão cobiçada parece tombar do céu como maravilha… E a aceitam como maravilha-festa… – voz desligada aquecendo a ida, dou a mão e depois volto à minha caminhada indestinada. Sou matinal. As noites não mais pertencem ao eu. Você pode recordar as andanças de céu noturno que fazíamos juntas… mas vivo agora na paisagem perclara. Um desejo de não sei o quê…
De tentar recompor você a partir dos raios de maciça fumaça, mas efêmera sensação que me faz silenciar teus olhares, imaginários, são teus olhares…
A cidade solitária mergulha a fundo…

Não mais me pergunte, vou-me embora, me liquido já
Já me parti há muito tempo
E sai. Me deixa a nu.
Soube desde então que nossos amantes da Rua Paradiso tinham se deixado uns aos outros e portanto essa situação era insignificante. Mona, com seu bigode e seus longos cabelos, minha boina francesa e teu lápis de olho
Os amantes da Paradiso, os fúteis amantes da Rua Paradiso tinham incendiado o próprio apartamento
Seus gritos de revolta…
« Pra Zona Norte, pois lá vive a solitude que bebo »

A Esquina Fechada
As manifestações seguem um itinerário diferente, estão aqui e acolá, revoltam os jovens os muros e derramam no calçamento a cor extravasada…
A insistente jornalista tira fotos e se dispersa; ela sabe e soube sobre a demolição do abrigo que lá existia.

Pouso os pés nas asas do Mundo,
Nada me poderá destruir tão agora

Quedam as dúvidas
Quedam os ídolos
Quedam as placas
Tudo sei, tudo sinto
A multidão acelerava
Os prazeres do Incógnito
O tecido cetim caía
Sei que pulsa dentro de mim
E pulsante minha carne desaprende a recuar
E avanço avançando em Tua dança sublime-e-potente
Vozes orquestrais buzinantes, olhar-fônico, procurando, inutilmente, algo pertencente
Se me abandona faço insurgir
E minha carne esquece as triturações

A travessa
se exasperam todos os nervos
na errônea visão ondas golpeadas torpedos, bússolas, rodas de carroça
já não tenho morada
e só e vagante os barcos de lata vagam
teu grotesco corpo…
minha ansiedade somnífera
o barco vermelho anuncia
o horror!
a carcaça estava ilhada!
na contramão
o semáforo no centro da civilização
me derroto e a tua luz esguia
naquela estrada interminável
sangrenta corre a cena pelas rodovias
onde se encontra o manequim
esvaído nas ondulações
vê Aléxis descendo
o asfalto
Tua mudez
nosso desencontro
da esquina já aberta
Alexandre desce o barranco do parque

O balé dos enforcados

– Ela está de luto há 10 anos.

A insônia do alvorecer entregado ao olhar vazio da nicotina foste nascida de teu circo abandonado

« Eu fui noctâmbulo na época em que existia felicidade e acreditava que em ti […] me existia. »

– A felicidade basta inventá-la a felicidade

– Tão apaixonado!

O sonho repetido tinha o sabor de cachaça, ébrio, me revirava
Um clima violinístico pairando na fumaceira das películas na escuridão somnífera
O azul tom pairando na sala de estar
E a tv em tromboses entrando
Mão gélida na boca como que decidindo ouvir:

« A alma não dói. Você nunca doía.
Você era a dor completante –
É o espírito hostilizado que em cambalhotas se despe e faz descer à nossa garganta o óleo das frigideiras »

Como a malha que gruda em nossos corpos subindo tão alto…
Para lá poder viver.

“A frigideira virou o óleo quente para dentro da cabeça”

“Duas figuras, uma desaparecendo no assoalho cascateando revólver, a cabeça desaparecendo nas cascatas do solo empapado avermelhando”

E pelo espelho você me observava
Você me encarava atraindo a minha evasão. Não sabia viver e fiz dos trapos minha morada e da tua voz,
Manifestação em violento som

levanto
estou em vigília
se abrem as cortinas
sons da Rua em ninhos que são a cama em que estive deitada por horas e eras e milênios a passarinhar pelo interior das Avenidas em xícara de café derramado no assoalho de concreto
essas cenas em convulsão extrema devorar o Mundo, vozes, em frente às telas pintadas do universo que não basta a si e sorve a ele próprio
a fome do mundo
é preciso ter sede constante
o sentido morto
os cometas adiados
o cometa adiado encara todos os planos
um grito gestual de dor incessante
em nossa luz de incandescência e Rebelião
todas as dores dolorantes emergindo nas veias da Radicalização
a voz paralela em êxtase doloroso

[nos quadros de sentido e inapetência os rostos formam a alma revôlta
é inteiramente possível dizer algo emudecido que esteja fora do sentido linguístico nos petrificante?
num plano de faces da mesma cor é possível que exista uma alma de revólta prestes a desnortear os sentidos e nós, os afogados em escoriação da alma, estamos em busca do rosto oblíquo lapidado por anseios desesperativos]

uma comoção
capaz de tragar a interioração e assim buscar as vozes de famélico tom
a língua poética valida todas as pensações
a língua
se autodestrói inesperado
vindo do perdimento da consciência em sangue-vivo
indo na escurescência da fantasia

a fome do mundo a fome do mundo a fome do mundo a fome do mundo
é preciso morrer buscando
na sufocação o viver
nas ações onde fome e Rebelião renascem em nossos Espíritos como cometas de força imparável
o cometa adiado

amnésia ii

um grito invisível
a voz violentada
entrepassos automáticos
nada dito nem relatado
crescente indistinção entre vida e morte
a continuidade fragmentária e mesmo torturando-se inevitável prazer
a escrita falha o ser
e não é ela mesma a terapia de exorcismo
como se pensava
pensando livrar-se da escoriação somente me encontro a dor do universo construído
as tentativas de cura devem ser demonizadas ao extremo
o acabamento e o absoluto devem ser descartados como maneira de viver na sufocação

de quem se apodera e intoxica o Espírito com doçura imaterial
ingerindo letal, em uma crua tragada, o próprio destruimento

de quem se encontra na perda invisível o perfume de leveza também mortal e dali mesmo lhe surge a consciência de estar prestes a parir o sentido vivente, mas já experimentado inúmeras vezes por alguém Outro que não Nós
o vulcão, essa crescente atmosfera de embriaguez e abandono do Si

« Eu posso representar tudo, menos a minha vida, que é trágica. »

Não quero conhecer a ele
as movimentações do Abismo
o deslocamento imprevisível das notas
e então há uma transmutação das cores – existe vida
e sendo vida a música
o mundo se recompõe no instante
que desponta como navalha a rasgar docilmente
assim sei que jamais estarei sozinho
aqui
eu andava
Ela tinha andado devagar
não me sei,
viver, sem arder pela paixão do instante
você não me soube viver

A noite corria
uivavam as moitas
senão pelo instante
senão pela dissolução da imagem nas imagens perdidas
a música, sempre o clamor pela musicalidade do cotidiano
do meu defeito, da minha catástrofe constante

Me atento aos movimentos do corpo; sua oscilação facial, seus gestos.
E então confronto as duas: estou no meio, estive no meio desde sempre
você age assim, você justapõe

Eu te oferto o silêncio
não há comemoração, tampouco festa
os convidados estão marmorizados
se desmembra o lustre em pedaços
você desaprendeu a dançar
está soturna, calada
há quietude

O perfume noturno da cidade sufocada
a qual sempre esteve,
através de um matadouro doce se transformava
Em meus sonhos, em meus pensares
A cidade solitária
a tinta verde de seus morros,
palcos alados
Alamedas de um calor-de-fogo
o perfume diurno da cidade esfinge, a qual jamais deixará o seu trinado
Em meus sonhos
Em meus sonhos

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aphantasia

Lullaby

os disparos na inquietude são precisos
esta não é uma lullaby
ar frio matutino me cai sobre o granito

– você já teve aquele sonho
aquela inquietação idílica de ver-se decaída ao chão sido disparos contra a íris vazando hedionda cura para a incurável oscilação de oceanos
e na cuca tamanho rombo vermelho gota escarlate acontecendo
gotejando
gotejando
gotejando
– desta vez
[não podemos] te encontrar mais – respondeu sorrindo amarelo de estranhamento
onde você esteve (eu perdi e sempre perco você facilmente
nesse mesmo cais há um navio – igual no filme de bergman,
entro
estamos procurando as falhas e o buraco por onde me espera sair
escapou e evitei os navios por tanto tempo e ficaste aqui ficou
e lá fitando o rancor que deixei sobre a mesa encardida de cigarro e sua pelerine
a rouca entrada obstruída
se te abandona a asfixia
levanto e faço acender um abraço invisível
você nunca me permite afundar nos círculos da sua deserção
estás sempre sozinha e apedrejada e por espanto eu te imito

consegue mensurar esses acontecimentos que jamais serão descritos
aphantasia
se finca o riso alucinado nos enquadramentos do teu semblante
não tenho destreza para as falas que poderiam acalmar
foi puro explosivo das almas em trituração
e sei, quem um dia, ouvi cantar transbordando
M. me disse durante a janela do ônibus entardecendo no abismo
M. esteve no balanço a embalar a lullaby
que faz ela perder o cais porque nós dois sabemos esses momentos indefiníveis
de vagar pelo mundo embebido
amarguramento da estação laranja a sair e a entrar nos semblantes
o rosto de T. relembra a memória de um quadro expressionista
ouço a náusea do espelho
o prédio cadáver parece penetrar os óculos escuros de T. e ela lentamente observa a áurea desse universo emudecido
o meu espírito antagônico não pertence a lugar nenhum senão às batalhas que elegi como prelúdio das fantasias vestidas em mim
permanente
se me abandono significa que nunca ele esteve por completo
mensurar esses acontecimentos
 

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(L. deita na cama o asco que pareço causar

tudo em mim está podre e delinquido
esforço para explicar
o ponto sem-retorno, a fala é a emoção já exausta)
não se toma de alguém a sombra diante da insuficiência

é porque não se reconhece
e não existe mais sujeição
quando na erradicação do afeto
há um momento em particular que define o aguaceiro
– desce a todo ímpeto, levando consigo as memórias
derretidas pelo calor da desesperação
– que os traumas são rios de espasmos a escorrer
tentar anular o sofrimento tempestivo que insurge
não o sei e jamais terei a totalizante sabedoria de vida da qual tanto se fala

quando pergunta finjo ter dentro a elevação das coisas, a beleza
não mata a fome – finjo compreender a origem dessa sujeição
da qual tanto se orgulha

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matar a fome apenas solapa a guerrilha febril e necessária
a voz paralela não obedece limites e aceitar esse redemoinho sangrento é a declaração de não-paz, afirmar a força destruidora nos habitante:
sucumbir às artimanhas da guerra histérica, mesmo estando em pedaços, jamais extraditar o espírito dilacerante
se comunica apenas com o desespero

a fala e sua voz e suas palavras agudas – violino ensandecido atravessando a montanha-borda
olhar-fônico reverberando picos em que o difícil encontro congela na falhura das mãos separadas

voz paralela.

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Buscando alento no que nunca se pode tocar. As respostas surgem sempre na hora em que são derrotadas as facas

– o enlevo que sente moldando as trincheiras da própria queda

assim é o quarto submerso
invólucro de vômito,
estado de sítio e aniquilação
ao virar-se vem a marteladas na cabeça a utopia impiedosa
se decide viver

então esse viver é a completa defecção
se decide morrer,

o quarto cessa a morte
torna-a tão viva e similar à vida

o desejo volta
se voltando uma vez mais e constantemente para a luz da visão
abandonando o pálido ou a sombra, pois essas duas nuances nascem do choque impossível

O que nasce no intestino não enxerga; sem olhos, afogado em lâminas, o quarto submerso jamais ouve ou come
a comida somente realça a matança que ele produz

a canalização dos sonhos triturados e o combate ao tempo
a luta pela liberação,
e, logo em seguida, o aprisionamento voluntário

O quarto submerso não é nada do que nos foi dito
nunca vai ser

O quarto submerso.

En passant
difusão, pensamentos, Sem categoria

cartas em branco

todo processo de exorcismo é o processo da dor intraduzível. 

a ferida que perpassa o ventre, escala-o e queima os nervos tal como veneno a subir pela garganta adoecida
todo ato de escrita é o abismo a olhar-se dos espaços onde se absorve treva e luz, colidindo no que restou dos parênteses abertos, e desses não haverá solução aparente
toda ato de escrita é falho, e somente reflete a nossa condição miserável diante do eco que não possui morada ou anatomia
por que escrevo e por que interrogo?
por que oferto o meu corpo à dissolução, à figura terrível, que persegue?
doo o objeto que, até então, parecia indispensável

cartas em branco sondam o abismo desde a infância.
espaços de falso-suicídio
– espaço de quem já partiu, mas lhe permanece o objeto. A perda múltipla das perdas, o buraco
por que se leva às últimas consequências esse corpo?
a figura acompanha a chacina; ela acompanha desde as ruínas.
a fumaça mortífera, os incensos de odor nenhum, a vitalidade aguda e os incêndios habitam esses espaços de falso-suicídio,
derivações
essas derivações deságuam no suicídio próprio.
as cartas em branco leem a si mesmas porque de ninguém necessitam, e disso sempre se tirou uma solução

carta sem destino

A sufocação espreita todo o meu corpo; jamais fui arrebatado por tamanha paixão e fervor de espírito, carne e apoplexia.
As horas que se passam. A vã idealização, o chacoalhar de meus ossos às vésperas de um colapso total.
Toda a centrifugação do ardor que sinto em direção à sua imagem, a simples memorização de aromas e cores, correntes de desejo e repulsão juntam-se ao meu grito incessante.
Nunca pensei encontrar a vulnerabilidade que mantinha a salvo num porão mofado, escoltado por fantasmas.
Quando penso, e se penso diretamente em quem, penso de forma irremediável nos olhos de verde-angústia, de pura hipnose convulsa. Em gestos dóceis de braços de despedida, na voz crua e sólida como o desprender do gelo, derretendo-se pouco a pouco.
Nenhum gesto, nenhum som violento de prazer ou silêncio letárgico escapam de nossas bocas entreabertas.

Noite eterna
Velar alguém.
Velar um corpo que dorme aos repiques noturnos, aos sons que despencam do infinito noturno; velar um rosto que dormita pacificamente.
Nos reacende o sentimento repartido em dois.
A iminência da morte
E a pacificação do ato de velar um corpo mal coberto reacendem a perspectiva – uma perspectiva que às vezes tosse em meio ao hálito que se alimenta
Visão sem cor de torturas.

Dia eterno
A amplidão
Se parece distante
A queda de braço entre o distanciamento, os braços fechados por detrás da face
o rosto sem emoção, as pálpebras, a difícil voz se eleva

na avenida se cruzam almas e nas almas a avenida imóvel mas
um adeus, um torpor, um grito de perda
Gargalhos e passos, moedas a galopar,
veículos.
O exterior nunca foi o mesmo a partir daquele ocaso,
Ensolarado
Em que ouvi a mudez, maciça, o difícil encontro,
Navalhada de sangramento nos intervalos dos caminhantes
Crepúsculo dos dias.

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O raio exterior

in-ser

Cada gesto, um batimento cardíaco. Cada respiração, uma navalha indizível. Os dias se seguem com uma rapidez isenta de oxigênio. Observar a si mesmo através de um espelho esmagado por si próprio, ajustar a coluna, torcer a clavícula, injetar a preciosa peça que é a verdade. A mais dobrável, a mais propagada, numerada, declarada, injetar o que chamam de verdade, injetar o que chamam de verdade, injetar o que chamam de verdade,  injetar o que chamam de verdade

Cada olhar, um abismo que exaspera. Observar a si mesmo através dum espelho em prisma esmagado por ele próprio, ajustar a coluna, cortar a cabeça, beber o sêmen!

Observar a si mesmo através dum espelho transversal, cofre ensanguentado que se despenca, injeta a verdade, que se torce, ornamenta a face

Ou se vive em pleno ponto sem-retorno ao buscar a marcha-ré, e morre e contempla, e vive ao viver buscando-se na catástrofe.

Estando parado! Estando imóvel ao estar cercado! Correndo, não me rendo! Parado, desfio! Dentro dos ângulos a imagem passa a nos refletir já dissecados, um ângulo desaprende e o outro reflete a imagem de um conhecido indo direto à boca, tal mel que nunca vence; uso-a e assim venço, não venço a quem ousa dar-me o traço pois é sempre o Outro que nos força a realidade:

Paralisia tal ponte levadiça encapuzada de guilhotina, tal rei déspota sendo enforcado, tal cadáver apodrecido sentado e em pé. É o som estridente da renúncia a rolar pelo convés, do corpo como ele é, defeca, fede, implora, necessitando de auxílio eterno, tal porco prestes a parir!

Ou se aprende a contemplar a catástrofe magnânima que é viver na paralisia, ou se morre em tal paralisia

Do corpo como ele é, defeca, fede, implora, urra; cofre ensanguentado que se despenca, que se torce, ornamenta a vista

 

 

 

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