Do ponto mais finito, foste argila

A CRIANÇA REPARTIDA

a câmara altera repentinamente a correnteza
são raios meridionais, uma cortina de fuligem acontece e há barcos engarrafados como cipestres colunados…

e, de bruços, entressonho ou entrementes:

percebemos Luce, que vê o deserto alabastrino,
e estrelado, terra erma e danosa, que nos alucinou alimento e vivenda…

— Éramos atraídas por uma possível luz suicidária, como lumes, cinzabelhas, moscarelas e peixolhos e fomos daquilo fogos de artifício e nascente ou vinícolas mortas. Viemos do limo.

— Éramos mariposas silenciosas próximas da Alba, correntes de giz e ervas sutis surgindo…

— Éramos peregrinas. Haveria outros relicários e sagrados delapidados e deitado em cacos o sagrado…

— A sombra mortal que nos submergia na areia… se cristalizou à hora de alçar voo; é hora do desacorrentar-se da Maré!

Eu não compreenderia o olvidar fosfóreo da tua pensação.

— Não! Você se esqueceu da felicidade imaginária, esqueceu a felicidade banal.

Nico procederia a Hermès com tal canção. A câmara fecha em seu semblante: é todo oculto e ocupado por borboletas negras em Evasão.

E as conchas bebendo, ostras ou barricada e veneno
a pelúcia decomposta, conchas côncavas, bocejam…

Conchas porcelanadas, o alambique,
a esteira para o fim; este armadillo e aquela sombra.

— « Se alimentar unicamente de argila, encenar viver e principiar pertencer às Ruas e às Cinzas. »

Vem zunindo a fragrância de outras gentes; a redoma se esvai líquida, afora, pêndulo e espelho projetam um carrossel dilacerante no Teu peito já foragido.

— Ao sul! Ao norte!

— No desarmar limítrofe dessa barreira… Ilhéus, istmos, derrames, farpados, estacas, penugem, arcos, e lá: infinita esteira para o fim.

Incontornável, incontornável material de beleza parda e meridional…

— Quantas cores em teu labirinto; quanta presença irredutível da Tua fronteira movediça.

— Televisão em preto e branco, rádios estelares, quasar, pesadelos em preto e branco, bonecas de peluche e porcelana / deitadas em cacos / teias e extensas teias de aranhas / reluzentes aracnídeos e serpentes em debanda.

DO PONTO MAIS DISTANTE

Luce diria à Luisa, antecedendo a desaparição de Luce.

— É uma enfermidade inominável em que repousa essa música secreta. A ave fronteiriça desprovida de olhos. Rodopia, às cegas…

— São as asas recortadas desse canto estival que me costuro em sacrifício.

— Num ímpeto incompleto de ter-me navalhando o Céu comigo o Caos e a Longitude.

« O orvalho quando queda
Detrás da floresta rompante
E há flamejantes em tuas têmporas
que a mariposa flamejante contorna »

« Redescobri-lo, sempre.
Um olhar impossível,
talvez leveza
fortaleza perene…
mal, houve,
Os dias transcorreriam. »

« Um olhar voltado para baixo ainda que saurgindo para fora do meu Espírito. »

O mutirão ostentaria irrequieto o foragido.
Ontem eles subiam os Morros, vestiam a saia turquesa e fugiam juntos.

Hoje foste ventania no Rochedo, e no entanto… Voltariam para a penitenciária da Vilavante.

— Queria que me fizesse Mal ou sonhava com o turbilhão penetrando a si, portanto.

Clara Carneiro desejou sobretudo tê-lo penetrado. Mas…

Os fusíveis queimaram-se todos, lá, a estagnação. Da ponte suspensa, dois homens a fumar se retornando diríamos de suas condições.
Um momento furtado e Clara teria pressentido suas vidas…

— Às voltas do quarteirão, os promontórios, aquela pintura descamando, aquele mural grafitado nas tábuas.

Em meio às tintas desvendando, diria surpresa:

— Isso é a Vida? Isso poderia ser vivido?

— Sim! Como quem está em Vésperas!

— Revérbero! Raio! Cometa! Estações!

— E que se tornou Abismo tanto, por deixar de vivenciar para vivenciar a clausura, aqui.

— « Eu conjurei às Chuvas o melro como quem armou e amava penitência. »

A REDOMA

« qualquer criança já foi uma criança repartida
com seus escritos de argila,
a rondar
peregrina
em um vaivém, qual frenesi ziguezagueante,
e enquanto pluripalavra
restam aventuras infindáveis »

« Quando dei por mim na horripilante hora da peregrinação a me afastar do contato humano; a horripilante hora penetrante.

A dor intangível e o afeto incompartilhável…
e cair, entorpecida, às esquinas junto aos gatos, magricelos
subnutridos, jogados na sarjeta. »

O corpo que gesticula diretamente a dor.

A escritura será o deslumbramento transitório da imaginação tonificando-se num mundo precário: pois falhadas todas as edificações ditas reais, também falhada a aglutinação do Espírito lacerado, é obrigatório encarnar a palavra em outro espaço, matizado espaço.

NÃO! NÃO! NÃO! NÃO! NÃO! NÃO! NÃO! NÃO! NÃO! NÃO! NÃO! NÃO!

— Alimentar-se, pois, unicamente de argila, encenar viver e principiar pertencer às ruas e às cinzas! Ainda que ser osso e sangue e mãos e nervos que se embolam feito foie gras na mesa na qual se devora o riso, trepidante, que se ia embora…

NÃO! NÃO! NÃO! NÃO! NÃO! NÃO! NÃO! NÃO! NÃO!

A PONTE SUSPENSA

E, um dia, quando sentada à sua espera em calafrios,
Os dias transcorreriam.

Hermès desceria os Morros da Vilavante, cairia a sujar as botas de argila e fezes das ruínas da minha casa antiga.

Ele encontraria os laçadores, a mulher prostrada ou indigente chamando os cães, meus rabiscos perdidos e espalhando faiscares de suas faces alienantes…

— Que pavor senti ao vê-los novamente e novamente como quando debandei…

Eles fedem a álcool mesmo através de um álcool que não se produz mais na Ribanceira do alambique. Eles fedem a tabaco e a metástase.

— São borrachos. Está no sangue deles.

O céu seria carmesim e liláceo crescendo na nostalgia: para mim o Céu era carmesim e liláceo enquanto o pavor era nostálgico.

— « Embarcai no automóvel, Luce. »

— « Fechai os olhos, Luisa. »

Os barcos tolhem o meu caminho, quero passagem, há árvores rosadas e adiante arquipélagos, me abram passagem…

— Vilavante, que desventura habituar-se a esse paradigma!

As janelas esparsas e os corredores que vi no subúrbio, Hermès Andrade, o dinheiro!

Me locomovia ardente por vê-lo,

Nico ardente por vê-lo.

Na capela, Hermès em pé, Clara acompanhada de Luisa na Rua esvaziando.

Os clientes à noite, haveria dinheiro para pagar ao menos um motel?
A redoma ali permanecia limítrofe; a redoma viu a Noite fantasiar-se na palidez evapórea de alucinações corpóreas…

« O afeto
se remonta do deserto
naquele alvorecer
nesta tardança
e a tua mente evapórea
e a tua mente evapórea »

— Uma bocarra, incontornável boca, de performance do impoder.

— Há um pronunciável desgaste de repente,

E, um dia, quando sentada à sua espera em calafrios, os dias transcorreriam.

A VILA-AVANTE

Antes da Alva,

Hermès, Clara e Luisa se retiram das Goteiras.
Na estrada ofereceriam caronas; quanto movimento, quanto som agridoce e tiroteios sem tiros…

— « Esta jornada, Hermès. É o gesto máximo de nossas Vidas. » — e Clara oferta o colo para os dois.

— « Luisa, ainda chamada de Luis por seus pais, ouve o deserto estrelado durante a Passagem da Entre-véspera. »

Este país.
Qual país?
Esta morada.

Houve quem lhes provesse morada?
A mãe, pela boca do pai, ponderava altissonante:

— O texto não sustentaria esse telhado:

Quais palavras, nulas!
à deriva das moscas, esta casa.
Os abutres tilintam na expectativa de nos ter em um só balouçar de redes e enredos:

— Findada a pescaria!

Não temos mais provisões, findaste, e não há mais noite nem dia. A fonte elétrica te interdita a Luz.

— Não há mais provisões e há somente Noite e duro trabalho: labor que te proíbo.

— Tu me findaste para eu nunca mais ser Véspera!

« As edificações ditas reais, o dinheiro prometido! Os suspiros, a devoção! »

— Luisa… Luisa…

— NÃO! NÃO! NÃO! NÃO! NÃO! NÃO! NÃO! NÃO! NÃO! NÃO! NÃO! NÃO! NÃO! NÃO! NÃO!

— « Debandai… Debandai…. »

Falhada a aglutinação do Espírito lacerado, falhado o caminho, fundada a Ribanceira, desmontado o palco, lustrados os vasos, falhada a pensação.

Luisa não se afeiçoaria mais a qualquer alguém. Tratá-los como incógnitas.

Mas…

O céu seria liláceo naquele alvorecer ou nesta tardança; tua mente evapórea crescendo na Nostalgia: incontornável abrigo de janelas esparsas e corredores me locomovendo aos corredores…

O meu coração rebentando perante o dinheiro. A dor intangível e o afeto incompartilhável perante o dinheiro.

Luisa jogaria na sarjeta todas as notas que encontrasse na bifurcação da Vilavante, recitando:

« O corpo híbrido, que gesticula diretamente a dor, é vínculo irreversível… É a força ferida. A minha cela infinita entre essa pele e minha persiana e meu colchão. »

« Um Outro sem nome ou uma esperançosa incertitude… Era todo o intento de se fazer claritude nas barcaças de braços curvando-se pela ferrugem, daquele verbo marmorizado, daquela pureza, obstruindo o meu invento, a minha invenção da Beleza… »

DO PONTO MAIS FINITO,
FOSTE ARGILA

O gato adoentado do outro lado do piano, momentos de um tempo pregado à sua translúcida Evasão do viver tal metade, vínculo irreversível.

« E, um dia, quando sentada à sua espera em calafrios, lhe observei a cara despontando no breu. Belo breu, bela frágil figura… Pele tão macia quanto frágil, silhueta,

Os dias transcorreriam… »

Os sonetos de uma madrugada mundial

Os sonetos de uma madrugada mundial

as marionetes são postas para dançar
as marionetes são lançadas para cima

A arte da palavra é a arte de ferir.
Porque para nós não nos restou sequer um farrapo; e mesmo o nada volve-se crueldade.

A palavra é percalço de sacrilégio e sacrifício, cicatriz profunda à mostra carregada por vagões de tinta.

sobrepor o mar que é fênix, que é lago de transbordamentos: anestesia impenetrável 

A palavra de ferimento se tinge nas cores do sonido nos estilhaçando o pensamento em ramos; logo de início quando em face dessa arma de cristais de extração, alimentada por seiva e fragrância e vísceras […] é sabido: deve-se perder o fígado e a beleza e as entranhas para assim alquebrar as iluminações – a ferida não é mediada por tochas tampouco estancada.

Toda [eloquente] escritura é lixo que se come do lixo e desaba no limbo da corrosão; pois bem, a poesia
quinquilharias produzidas, raciocínicas, lidas individualmente e em uma lógica digerida
quinquilharia – erupção bem-acabada por um gozo nas entranhas da palavra!
Se termina aqui a extorsão do significado e jaz nesse monte a tua decrepitude e está nesse monte a lembrança daquela viagem; às três horas de uma madrugada em transe pegamos o táxi até Santa Flora nos descendo em frente à igreja de estrada.

Uma luz curvada recai muito rapidamente por sobre o meu perfil; ao que parece os meus pés desejam me levar até o barranco onde existe, nesse exato fio da minha inexistência, uma fogueira. Não pressinto labaredas, não há quentura, nem ação; pelo etéreo descampado o olfato: há querosene, existe trepadeira terrestre se locomovendo junto das flores as quais perseguem o manancial de água eclodindo do esgoto e existe fogueira erguendo suas cinzas aos limites da minha percepção
me basta adivinhar sua fisicalidade: aprendo esse cantarolar fagulhante; me enveneno em sortilégio – ligeira violação do que parece ser humano – fumaça – gaguejar decrescente

Dotado de uma sensação escandalosa, mas retraída, sensação esta de estar sendo diluído entre as tuas mãos de concreto; o que não deve ter feito – esta encarnada mão me apaga a memória e me deita metafísica à jaula de gelo
Era assim a sua vida; dançava à noite e, ao fundo, vivaldi
não era barroca em seus atos
doía a garganta quando falava
espirrava perfume no ar a sorvê-lo
em horas minha alma voltava a se dissolver pois a aragem de outono respirando no meu roupão encarniçado

Estaríamos em cinco.
Exalava uma alienação que se entrelaça; já não dizia palavra e os outros se mantinham como que robóticos – eu era adorno do ambiente; a cadeira bamba em bambolês de arame amarrados à cintura e dançando-me eufórica temi tocar a vida em sua culminante evaporação.

Luchius tem olhos de âmbar. Enquanto me ocupo em observar seus pés – nus – Lucius termina de mastigar as ameixas; e por que eu o adorei desejando nele me transpor?
– vê nessa foto a tua negra cabeleira? – já não me inclino para você e já não lhe me quero. Olha pras estátuas! – quão raivosa sua feição é ao mirar o mármore debulhando magma.

Luchius Luchius Luchius Luchius

– Teu palavrear chulo, tua bocarra abarrotada de chumbo – que ânsia e que desternura. Eu jamais poderia ver qualquer um face a face. Eu nunca te amaria porque a ti te agrada a podridão do corpo. Eu nunca amaria a mim mesma.

derramamento
O fim crepuscular é o ápice da minha desertificação
O céu jaz em comoção extrema e as antenas da relva evaporam e ascendendo no elevamento do rasgume
voam os estilhaços das libélulas
E como tatear a beleza caquética vaga-lume em enxames
das brasas da noite
não se toca no corpo sem antes perder o próprio corpo
na afeição o desmembramento
dementia tremens
dementia tremens
lixo que se come do lixo
o ato sísmico

– Os revelamentos, senhor doutor?

– Poderíamos dizer que o enfurnado revela-se nas mais inconsequentes situações, mas aí mesmo erramos, justo que ele é uma unidade que não se descontinua no paralelismo – no espectro das vozes
É tanto mais uma vertigem que verte despedaços da paixão-que-se-escoa;
a qual lançamos à cara com sofreguidão.

Bambina Terêncio é uma atriz negra por quem sou apaixonada pela etérea entorpecentia – embora não exista nada em comum entre nossa amizade se fragmentando. O cabelo de Bambina é curto – e no amanhecer de toda vida nós nos encontramos no entroncamento da Faixa Velha entrando na Rodoviária rumando avenidas abaixo;
Bambina traz consigo Amélia, alta e fotógrafa punk – Amélia tem óculos escuros tampando a vista dela habitualmente.

– Quem é?
– Não o conheço.
– É necessária a operação.
– Não quero que me leia o corpo!

As sentenças
Decaio como quem sonha eletrocutado numa cadeira elétrica;
dizem que preciso, antes de compor o retrato do túnel em seu derramamento, ser podado diretamente extrínseco nas asas – ou que me retirem violentamente os nervos, que me firam a patela
Na espúria tentativa de ser outro

A pancada nos miolos –
eu está no mundo
eu pensa, eu age, eu sabe escrever, eu sabe cultura

Melhor teria sido; quanto melhor ter ido na direção das águias que se sopram para longessonante da verdade consciente
me afogam em civilização

Você ajudar-me-á todavia
Por cozimento lento nos sons

Jamais hei de esquecer tão despedaçada alegria
não serei capaz de escrivinhar novamente
nem nunca, jamais
tivesse um sonho; se tivéssemos sonhado talvez no entanto
não me é nada e
senão sonhos – algazarra e folias
me farei presente apenas e sempre em vislumbre
clarões fotográficos atingindo o solo em labaredas de puro sono
flechadas e míssel e arranhaduras

– Contra a carne e contra o meu chão e contra meu antebraço, os mísseis.

Porque as palavras já bastam a mim
E o delírio ainda por vir…
E o delírio ainda por vir…

cartas em branco

todo processo de exorcismo é o processo da dor intraduzível. 

a ferida que perpassa o ventre, escala-o e queima os nervos tal como veneno a subir pela garganta adoecida
todo ato de escrita é o abismo a olhar-se dos espaços onde se absorve treva e luz, colidindo no que restou dos parênteses abertos, e desses não haverá solução aparente
toda ato de escrita é falho, e somente reflete a nossa condição miserável diante do eco que não possui morada ou anatomia
por que escrevo e por que interrogo?
por que oferto o meu corpo à dissolução, à figura terrível, que persegue?
doo o objeto que, até então, parecia indispensável

cartas em branco sondam o abismo desde a infância.
espaços de falso-suicídio
– espaço de quem já partiu, mas lhe permanece o objeto. A perda múltipla das perdas, o buraco
por que se leva às últimas consequências esse corpo?
a figura acompanha a chacina; ela acompanha desde as ruínas.
a fumaça mortífera, os incensos de odor nenhum, a vitalidade aguda e os incêndios habitam esses espaços de falso-suicídio,
derivações
essas derivações deságuam no suicídio próprio.
as cartas em branco leem a si mesmas porque de ninguém necessitam, e disso sempre se tirou uma solução

carta sem destino

A sufocação espreita todo o meu corpo; jamais fui arrebatado por tamanha paixão e fervor de espírito, carne e apoplexia.
As horas que se passam. A vã idealização, o chacoalhar de meus ossos às vésperas de um colapso total.
Toda a centrifugação do ardor que sinto em direção à sua imagem, a simples memorização de aromas e cores, correntes de desejo e repulsão juntam-se ao meu grito incessante.
Nunca pensei encontrar a vulnerabilidade que mantinha a salvo num porão mofado, escoltado por fantasmas.
Quando penso, e se penso diretamente em quem, penso de forma irremediável nos olhos de verde-angústia, de pura hipnose convulsa. Em gestos dóceis de braços de despedida, na voz crua e sólida como o desprender do gelo, derretendo-se pouco a pouco.
Nenhum gesto, nenhum som violento de prazer ou silêncio letárgico escapam de nossas bocas entreabertas.

Noite eterna
Velar alguém.
Velar um corpo que dorme aos repiques noturnos, aos sons que despencam do infinito noturno; velar um rosto que dormita pacificamente.
Nos reacende o sentimento repartido em dois.
A iminência da morte
E a pacificação do ato de velar um corpo mal coberto reacendem a perspectiva – uma perspectiva que às vezes tosse em meio ao hálito que se alimenta
Visão sem cor de torturas.

Dia eterno
A amplidão
Se parece distante
A queda de braço entre o distanciamento, os braços fechados por detrás da face
o rosto sem emoção, as pálpebras, a difícil voz se eleva

na avenida se cruzam almas e nas almas a avenida imóvel mas
um adeus, um torpor, um grito de perda
Gargalhos e passos, moedas a galopar,
veículos.
O exterior nunca foi o mesmo a partir daquele ocaso,
Ensolarado
Em que ouvi a mudez, maciça, o difícil encontro,
Navalhada de sangramento nos intervalos dos caminhantes
Crepúsculo dos dias.

O raio exterior

in-ser

Cada gesto, um batimento cardíaco. Cada respiração, uma navalha indizível. Os dias se seguem com uma rapidez isenta de oxigênio. Observar a si mesmo através de um espelho esmagado por si próprio, ajustar a coluna, torcer a clavícula, injetar a preciosa peça que é a verdade. A mais dobrável, a mais propagada, numerada, declarada, injetar o que chamam de verdade, injetar o que chamam de verdade, injetar o que chamam de verdade,  injetar o que chamam de verdade

Cada olhar, um abismo que exaspera. Observar a si mesmo através dum espelho em prisma esmagado por ele próprio, ajustar a coluna, cortar a cabeça, beber o sêmen!

Observar a si mesmo através dum espelho transversal, cofre ensanguentado que se despenca, injeta a verdade, que se torce, ornamenta a face

Ou se vive em pleno ponto sem-retorno ao buscar a marcha-ré, e morre e contempla, e vive ao viver buscando-se na catástrofe.

Estando parado! Estando imóvel ao estar cercado! Correndo, não me rendo! Parado, desfio! Dentro dos ângulos a imagem passa a nos refletir já dissecados, um ângulo desaprende e o outro reflete a imagem de um conhecido indo direto à boca, tal mel que nunca vence; uso-a e assim venço, não venço a quem ousa dar-me o traço pois é sempre o Outro que nos força a realidade:

Paralisia tal ponte levadiça encapuzada de guilhotina, tal rei déspota sendo enforcado, tal cadáver apodrecido sentado e em pé. É o som estridente da renúncia a rolar pelo convés, do corpo como ele é, defeca, fede, implora, necessitando de auxílio eterno, tal porco prestes a parir!

Ou se aprende a contemplar a catástrofe magnânima que é viver na paralisia, ou se morre em tal paralisia

Do corpo como ele é, defeca, fede, implora, urra; cofre ensanguentado que se despenca, que se torce, ornamenta a vista