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cartas em branco

todo processo de exorcismo é o processo da dor intraduzível. 

a ferida que perpassa o ventre, escala-o e queima os nervos tal como veneno a subir pela garganta adoecida
todo ato de escrita é o abismo a olhar-se dos espaços onde se absorve treva e luz, colidindo no que restou dos parênteses abertos, e desses não haverá solução aparente
toda ato de escrita é falho, e somente reflete a nossa condição miserável diante do eco que não possui morada ou anatomia
por que escrevo e por que interrogo?
por que oferto o meu corpo à dissolução, à figura terrível, que persegue?
doo o objeto que, até então, parecia indispensável

cartas em branco sondam o abismo desde a infância.
espaços de falso-suicídio
– espaço de quem já partiu, mas lhe permanece o objeto. A perda múltipla das perdas, o buraco
por que se leva às últimas consequências esse corpo?
a figura acompanha a chacina; ela acompanha desde as ruínas.
a fumaça mortífera, os incensos de odor nenhum, a vitalidade aguda e os incêndios habitam esses espaços de falso-suicídio,
derivações
essas derivações deságuam no suicídio próprio.
as cartas em branco leem a si mesmas porque de ninguém necessitam, e disso sempre se tirou uma solução

carta sem destino

A sufocação espreita todo o meu corpo; jamais fui arrebatado por tamanha paixão e fervor de espírito, carne e apoplexia.
As horas que se passam. A vã idealização, o chacoalhar de meus ossos às vésperas de um colapso total.
Toda a centrifugação do ardor que sinto em direção à sua imagem, a simples memorização de aromas e cores, correntes de desejo e repulsão juntam-se ao meu grito incessante.
Nunca pensei encontrar a vulnerabilidade que mantinha a salvo num porão mofado, escoltado por fantasmas.
Quando penso, e se penso diretamente em quem, penso de forma irremediável nos olhos de verde-angústia, de pura hipnose convulsa. Em gestos dóceis de braços de despedida, na voz crua e sólida como o desprender do gelo, derretendo-se pouco a pouco.
Nenhum gesto, nenhum som violento de prazer ou silêncio letárgico escapam de nossas bocas entreabertas.

Noite eterna
Velar alguém.
Velar um corpo que dorme aos repiques noturnos, aos sons que despencam do infinito noturno; velar um rosto que dormita pacificamente.
Nos reacende o sentimento repartido em dois.
A iminência da morte
E a pacificação do ato de velar um corpo mal coberto reacendem a perspectiva – uma perspectiva que às vezes tosse em meio ao hálito que se alimenta
Visão sem cor de torturas.

Dia eterno
A amplidão
Se parece distante
A queda de braço entre o distanciamento, os braços fechados por detrás da face
o rosto sem emoção, as pálpebras, a difícil voz se eleva

na avenida se cruzam almas e nas almas a avenida imóvel mas
um adeus, um torpor, um grito de perda
Gargalhos e passos, moedas a galopar,
veículos.
O exterior nunca foi o mesmo a partir daquele ocaso,
Ensolarado
Em que ouvi a mudez, maciça, o difícil encontro,
Navalhada de sangramento nos intervalos dos caminhantes
Crepúsculo dos dias.

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