fragmentos

A capitania do oblívio

Investigações de uma vida furtiva

– Sofrerei o desalento e a minha existência será grave, ou não será coisa alguma; sofrerei o desumano e mais corrompido estado de mergulho que se possa talhar na pele. A vida? Me perguntaste outro dia; não há canção que lhe faça arrefecer as fincadas. A vida é gangrena que coexiste; é gangrena que se alastra a subir e, neste epilepsíaco confronto, a paixão e a alegria tardam mesmo que arribem.

Me diria Valéria… Ou talvez Vanusa Aldebarã, sete anos mais cedo.

Faz demasiado vendaval hoje; registro em meu diário o diário de Francisca e subtraio os segredos que não virão à tona desde aquele evento silvestre; vou até a varanda aberta para o lamaçal que é Terracota. Dolores, companheira de Francisca, acena para mim a segurar o machado brilhante: mas a cesta de ervas vem sendo trazida pela capitã montada no azul potro a léguas de distância daqui. Gostaria de ouvir agora as histórias de araque de meu irmãozinho…
À margem da sombra da maria-fumaça…
Recrio aquilo que talvez possua fisionomia.

– Senhora, quer que eu segure o Soslaio?

– Vai chamar Valério antes de tudo.

– A dona Bambina está fora de Terracota por meses pois foi à capital se apresentar no grande teatro; e seu marido na semana anterior ao feriado. A senhora sabe a verdade.

– Vai buscar Cibele… Eu vou esperar Denis recolher a pedraria. É verdade o que andam a dizer sobre a caravana dos mímicos?

A persistência aparência que não sucumbiu às intemperanças da minha sem-jeitura; o que deixei de explicitar, quando calei e quando pude lhe exaltar.

– Denis detesta o meu toque em seus ombros quando está arqueado; Denis ele próprio existe verdadeiramente? Apenas visões do meu peito entediante. Eu o quero porque me entristeço sem pé nem cabeça.

Os mímicos voltam às vilas uma vez mais; o pavimento das estradas não se alargou um centímetro e o arvoredo das estâncias cresce, grande é o oblívio. Terracota está no leito mumificado e no luto o evento aquele inominável. Francisca diz para levantarmos as tendas do quintal e remover do bosque o espanta-corvo; andamos por córregos e garimpos…

Consciência de ter-se originado de uma herança; eu recuso essa herança. Eis quem fala e eis quem admite ouvir. Quero e desejo do fundo de minha indisposição – impoder da fala […]

Não houve quem não sofresse pela aridez da palavra. A carícia, a agitação das enervuras, o descontento, a impossibilidade de atingir-se e a impossibilidade de ser atingida; o contato humano é prematuro e portanto você acredita viver falho. Você não acredita na paixão e nós não acreditaríamos na quantidade de casos.

– Você tira o sentido mas o devolve quando volta a se apaixonar por ninguém senão pela obturação que te incutem.

– É outra coisa. Quero dizer: perco a vontade de dizer; regurgito a tua indolor fechadura.

– Pretextos existem desde a eternidade.

– Basta! Ficarei sozinha e tua tirania termina já. Recuso mastigar mais uma só frase e mais uma só fenomenologia.

Desse modo me disse na carta que arrivou ontem; ele me disse; os doces que tinha experimentado eram os melhores doces de sua vida. Esteve no Uruguai e decidiu seguir polo adentro suicidando-se no barco a vela. Uma overdose, sim, um formigamento se me apodera. Aonde vou? Se vivo e se viverei preciso conhecê-lo de novo e certamente será como se fosse hoje.

– E você não soube? Depois que o seu filho foi-se Célia se deixou morrer à beira da janela; a friagem lhe enrijeceu a vontade.

– A capitã não vai permitir a entrada da caravana em sua propriedade.

– Que se vão! Que partam os seus carros de ratazanas!

Há muito que não se houve canção nas pradarias; mas lá está o séquito ao redor dela; Francisca diz que é puro desatino abandonar as fazendas pois não existe mais mundo para nós para além dos moinhos que se movem pelas plantações, à meia-noite, se movem pela plantação de ameixas.

Ao meio-dia jogamos na lavoura.

A vida continua desmemoriada…
Volátil pandorga…

– Deve ir-se embora toda a sua gente de Terracota. Que caia a devoção dada a esse lugarejo. Se Vanusa precisar ser deposta não haverá empecilho por parte de nossos artistas, de nossos rejeitados.

Do outro lado da cozinha, Dolores não se atreve a mover observações acerca do discurso de Cavalcante. Ela está de acordo, como esteve desde o nosso desembarque.

– Antonina Aldebarã vem ao resgate de suas crianças, raptadas por Terracota.

– Lhes feche a entrada da casa! – Vanusa iria ordenar.

– Impossível! Estão às portas do vale. – Os lacaios poderiam responder…

A sua incapacidade para entrever a si mesmo; a nossa chegada e o nosso embarque se mantêm na sua mais cruenta indiferença.

Os pés de Octavio parecem levemente chamuscados, no entanto, Octavio se lava na cachoeira do garimpo. Ele convida a mim para me juntar à orgia, mirando o meu esqueleto coalhado na abertura da minha antipatia:

– Sendo menino, ainda tens cara de menina, e quando menina…

– Serei.

Eu seguirei Antonina porque ela está para criar algo majestoso.
Uma espetacularização de Terracota que não se inibe – os Aldebarã haviam mandado incendiar o circo dos mímicos, dezessete anos atrás, quando eu seria menina e tinha vindo do sul mais adiante.

– Você conhece as irmãs Aldebarã? Gostaria de lhes falar sobre a companhia deixada por seus pais, mortos no Uruguai há três dias.

Octavio e Denis estão indo abrir a ponte de ferro; Denis pretende dar invisibilidade à minha presença.
Eu os peguei declarando-se amor. Eu os peguei planejando um complô.

– Contra mim? Contra a fazenda? Diz imediatamente!

– Sem nomes… Apenas datas para a historiografia. Você nos ensinou, não? Apenas datas.

– Diz o nome destes traidores.

– Vanusa. Vanusa Aldebarã!

Na capital seríamos alguém; Octavio e Cibele e Denis voltariam à esgrima. Dolores e Francisca retomariam a editora abandonada às pressas no desancamento de nossa destinação.
E quanto a mim e a Valério…

– Dias atrás alguns emissários vieram à procura da capitã Aldebarã para que o oblívio fosse finalmente desprotocolado.

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Os sonetos de uma madrugada mundial

Os sonetos de uma madrugada mundial

as marionetes são postas para dançar
as marionetes são lançadas para cima

A arte da palavra é a arte de ferir.
Porque para nós não nos restou sequer um farrapo; e mesmo o nada volve-se crueldade.

A palavra é percalço de sacrilégio e sacrifício, cicatriz profunda à mostra carregada por vagões de tinta.

sobrepor o mar que é fênix, que é lago de transbordamentos: anestesia impenetrável 

A palavra de ferimento se tinge nas cores do sonido nos estilhaçando o pensamento em ramos; logo de início quando em face dessa arma de cristais de extração, alimentada por seiva e fragrância e vísceras […] é sabido: deve-se perder o fígado e a beleza e as entranhas para assim alquebrar as iluminações – a ferida não é mediada por tochas tampouco estancada.

Toda [eloquente] escritura é lixo que se come do lixo e desaba no limbo da corrosão; pois bem, a poesia
quinquilharias produzidas, raciocínicas, lidas individualmente e em uma lógica digerida
quinquilharia – erupção bem-acabada por um gozo nas entranhas da palavra!
Se termina aqui a extorsão do significado e jaz nesse monte a tua decrepitude e está nesse monte a lembrança daquela viagem; às três horas de uma madrugada em transe pegamos o táxi até Santa Flora nos descendo em frente à igreja de estrada.

Uma luz curvada recai muito rapidamente por sobre o meu perfil; ao que parece os meus pés desejam me levar até o barranco onde existe, nesse exato fio da minha inexistência, uma fogueira. Não pressinto labaredas, não há quentura, nem ação; pelo etéreo descampado o olfato: há querosene, existe trepadeira terrestre se locomovendo junto das flores as quais perseguem o manancial de água eclodindo do esgoto e existe fogueira erguendo suas cinzas aos limites da minha percepção
me basta adivinhar sua fisicalidade: aprendo esse cantarolar fagulhante; me enveneno em sortilégio – ligeira violação do que parece ser humano – fumaça – gaguejar decrescente

Dotado de uma sensação escandalosa, mas retraída, sensação esta de estar sendo diluído entre as tuas mãos de concreto; o que não deve ter feito – esta encarnada mão me apaga a memória e me deita metafísica à jaula de gelo
Era assim a sua vida; dançava à noite e, ao fundo, vivaldi
não era barroca em seus atos
doía a garganta quando falava
espirrava perfume no ar a sorvê-lo
em horas minha alma voltava a se dissolver pois a aragem de outono respirando no meu roupão encarniçado

Estaríamos em cinco.
Exalava uma alienação que se entrelaça; já não dizia palavra e os outros se mantinham como que robóticos – eu era adorno do ambiente; a cadeira bamba em bambolês de arame amarrados à cintura e dançando-me eufórica temi tocar a vida em sua culminante evaporação.

Luchius tem olhos de âmbar. Enquanto me ocupo em observar seus pés – nus – Lucius termina de mastigar as ameixas; e por que eu o adorei desejando nele me transpor?
– vê nessa foto a tua negra cabeleira? – já não me inclino para você e já não lhe me quero. Olha pras estátuas! – quão raivosa sua feição é ao mirar o mármore debulhando magma.

Luchius Luchius Luchius Luchius

– Teu palavrear chulo, tua bocarra abarrotada de chumbo – que ânsia e que desternura. Eu jamais poderia ver qualquer um face a face. Eu nunca te amaria porque a ti te agrada a podridão do corpo. Eu nunca amaria a mim mesma.

derramamento
O fim crepuscular é o ápice da minha desertificação
O céu jaz em comoção extrema e as antenas da relva evaporam e ascendendo no elevamento do rasgume
voam os estilhaços das libélulas
E como tatear a beleza caquética vaga-lume em enxames
das brasas da noite
não se toca no corpo sem antes perder o próprio corpo
na afeição o desmembramento
dementia tremens
dementia tremens
lixo que se come do lixo
o ato sísmico

– Os revelamentos, senhor doutor?

– Poderíamos dizer que o enfurnado revela-se nas mais inconsequentes situações, mas aí mesmo erramos, justo que ele é uma unidade que não se descontinua no paralelismo – no espectro das vozes
É tanto mais uma vertigem que verte despedaços da paixão-que-se-escoa;
a qual lançamos à cara com sofreguidão.

Bambina Terêncio é uma atriz negra por quem sou apaixonada pela etérea entorpecentia – embora não exista nada em comum entre nossa amizade se fragmentando. O cabelo de Bambina é curto – e no amanhecer de toda vida nós nos encontramos no entroncamento da Faixa Velha entrando na Rodoviária rumando avenidas abaixo;
Bambina traz consigo Amélia, alta e fotógrafa punk – Amélia tem óculos escuros tampando a vista dela habitualmente.

– Quem é?
– Não o conheço.
– É necessária a operação.
– Não quero que me leia o corpo!

As sentenças
Decaio como quem sonha eletrocutado numa cadeira elétrica;
dizem que preciso, antes de compor o retrato do túnel em seu derramamento, ser podado diretamente extrínseco nas asas – ou que me retirem violentamente os nervos, que me firam a patela
Na espúria tentativa de ser outro

A pancada nos miolos –
eu está no mundo
eu pensa, eu age, eu sabe escrever, eu sabe cultura

Melhor teria sido; quanto melhor ter ido na direção das águias que se sopram para longessonante da verdade consciente
me afogam em civilização

Você ajudar-me-á todavia
Por cozimento lento nos sons

Jamais hei de esquecer tão despedaçada alegria
não serei capaz de escrivinhar novamente
nem nunca, jamais
tivesse um sonho; se tivéssemos sonhado talvez no entanto
não me é nada e
senão sonhos – algazarra e folias
me farei presente apenas e sempre em vislumbre
clarões fotográficos atingindo o solo em labaredas de puro sono
flechadas e míssel e arranhaduras

– Contra a carne e contra o meu chão e contra meu antebraço, os mísseis.

Porque as palavras já bastam a mim
E o delírio ainda por vir…
E o delírio ainda por vir…

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difusão

O Manequim da Esquina Fechada

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perfume noturno

Viajam as melodias
numa grande aviação
e no interior ardem
A margem
tudo corre desesperadamente
capturar
o momento se desfaz
cavar nas areias
as emoções como líquido-gás
a garoa por dentro
lentamente
se enleia
a cova, a boca
embebedá-la em mim
Nas músicas onde vivem os sintomas
e no aroma da Rua trêmula
absorver meu fim
da Tua visão assim se elevar
de um ponto qualquer caindo,
O cabaré da Avenida Rio Branco

Da janela, Carmem e Mona encaravam a finitude dos dias.
A noite não parece mais a harmonia extravasada do final das tardes quando viviam e assim podiam dizer que existem.
Mas – o estrangulamento – víbora – reaparece:

– Fala do mesmo modo sobre as coisas do Universo; e ainda importa perguntar e falar e ouvir? Esse é o seu vício e seu defeito e tanto melhor que me deixe ser estraçalhada pelo trem que jamais passará pela gare de novo; tanto melhor que me veja sucumbir às suas drogas na concha abandonada. Suas mansões decaídas, amordaçada, Aléxis pensava dizer.

– Quer dizer, combina o preto e branco mas o passado parece agora te rejeitar. Você foge, você fugiu, para dentro de alguém. Para um ruído… Não nos falamos desde aquele dia. « Porque as coisas são como são », dizia. « Se desse modo nasci, você não vai mudar jamais. »

– Sabia dessas condições em que a Vida esgota o Mundo?

– Não me fiquei. Deliraste no perfume banhado no submundo.
Você voltaria a mim, o cabaré da Rio Branco, você voltaria pra mim. De repente volto ao pretérito sendo única sensação livre da morte. No passado me encontro ainda viva.
« Sua paixão é mero prazer obsessivo pela memória. »

Desci as escadas de caracol; enquanto pisava no carpete desgastado cilíndrico com delicadas estrelas avermelhadas percebi que as aves do lado de fora voavam como se fossem um triângulo.  Formavam assim um sensual triângulo robusto de carne, veias e, acima de tudo, imensidão.
Continuei a descer. Eu jamais tinha visto uma escada tão disforme; suas hastes estranhas — era gigante e aterradora. Pensei em deixar mas algo me mantinha maravilhado e tonto. Em seguida me sentei no último degrau do caracol. Carmem chegaria daqui a pouco. Meus nervos trêmulos. O que pensariam? Bambina estava esbaforida; sua cabeça enorme e oval continha gigantes olhos esverdeados, apreciando a visão daquele homem vendado.
Amélia segurava uma garrafa de rum no outro lado da salinha subterrânea.

— Precisam soltar ele.

— O Pinheiro gosta disso; a Bambina vai cutucar a ponta da carne dele e só — Mona me repreendeu, secando o rosto na toalha preta.

– Tens medo. Tiveste medo quando

– Já matei alguém – dizia, sempre onipresente. Quem era, afinal, aquele stripper? Carmem o chamava de Pinheiro. Na garganta de Carmen, o pingente. Aquele pingente enlameado removido dos campos da Boca do Monte.

– Não tenho medo de morrer – Carmem estava roxa. Os seios eram recém-nascidos, os traços fugidios cresciam em meio à barba rala:

– Faz bem aqui.

Conciliava o exterior com o interior como fossem gêmeas separados. Explosões, uma pessoa incendiada corria, um assalto ocorreu na esquina. A jornalista ia beirando as faixas de pedestre e era visível o descontrole da população, às margens, lançavam às lojas molotov. Os jatos de água subiam, pichado o lugar encharcava.

Contar uma mentira
Primeiro – dizia o médico –
A tigela tinha se esvaziado
A tigela alguém furou a tigela

Da rua José Bonifácio? Passava por ali durante três anos seguidos e desejava que o ônibus me atropelasse assim que vinha em tamanha velocidade. Ele deseja viver, talvez, os pedestres se perguntassem abismados.
Tua cabeça é corrompida, morria aos poucos. Como se fala isso sem pronunciar desagradável? É desse jeito: abre bem as sílabas como se me chamasse; me encontre na praça rosada.

– Imaginando ser adorado secretamente.

« O vício, assim como o desprezo, se cultiva por intermédio de emoções mistas balançando entre psicose e êxtase. »

– O que você quer?  – pairava o forte cheiro de colônia cozinhando pensamento e relutância.

– Ela decidiu fugir – jogavam carteado e assim se entretinham; o jogo lúdico suscitava em ambos aquela lembrança de não apenas sobrevivência.

Mona e Pinheiro tinham ido pela primeira vez a Capão da Canoa.
Carmem odiava F. Pinheiro. Aléxis se via contente com o corpo mas seus traços a incomodavam.

Prometeram e juraram e diziam certamente a completude […]
Qual foi o seu espanto tendo em vista o mundo lhe parecia nublado sempre, o acorde das guitarras violentadas, o terror
Era gentil. Diziam:
Como se fosse um caco de vidro gentil rasgando a pele… Qualquer coisa menos fazia sentido pois o que Alexandre pensava sobre mim era verbo já inerte.
Alexandre ia e voltava. Tentava se fixar, muito tentava, numa dessas esmeradas tentativas prendeu o cabelo, pintou as unhas ele pintava, e disse às amigas na sala:

padede / o instante

embora as vagas sensações eliminem a tormenta, essa amnésia é lúcida; trapézio ensanguentado – costurar ao corpo a melodia

Não se busca. A gente perece no meio do caminho. Você busca e morre.
Deliberou agir. Foi tarde. Viram envoltante em tons incolores. Deliberou fugir. Como? Faria agora. E fez. Correu a mim delirando na voz das avenidas, eu a socorri, tinha se ferido.
A cidade do centro solitário desmergulha…

O Manequim da Esquina Fechada

Percebe o caminhar…
Eles passam passando como flechas fumegantes dos pratos do restaurante
Entrevejo uma silhueta marrom, o ponto de ônibus da rua Cercada alcança a velocidade dessa embriaguez enquanto no banco esquerdo vai, dormitando, a visão de uma mulher já saída pela porta
A cada movimentação se esvai a alma, a cada esquina um refletor
Você parecia mais jovem
No orelhão da rua Riachuelo há uma travesti em seus altos saltos, rouge face. Sua boca é jaspe:
Ela ruge perante o olhar faminto da civilização
Atrás do estacionamento se esconde, observante, a torneira pingando
Pessoa capenga, capacetes, filas de carros rasgando as estradas de cinza exaustão
Duas figuras conversando, gestos delicados, palavras que não irei ouvir
Corro, vivo, caem os andares da Avenida Rio Branco
Longessonante….
Subindo o parque de entroncamento…

– Quem podíamos ser – Mona pensa perguntar e silencia o grito vermelho;
No meio das multidões devorantes existe a imagem de um rosto de emoção perdida, parece cair ou desviar do edifício muito semelhante a uma esfinge esburacada
Tão penetrante é a sua estatura…
Giro e girando me acho abaixo do viaduto
Frescor da alcoólica tinta no convés transportado para o interior da estação
Adentra o nosso peito e onde posso estar já não sou, para onde fui me faltam respirações porque parado perante os Outros me volvo tonto…
Na semana passada, a gente tinha deitado ao sol na ferrugem dos trilhos do trem. Não sabia que partindo ficaria. Eu nunca ouvia qualquer notícia sua.

– Esmoreço… caminhantes percorrem aquilo que chamo de eu – o gosto se escapa das válvulas dos motores escorrendo pelo meu olho.

– Essa vida tão cobiçada parece tombar do céu como maravilha… E a aceitam como maravilha-festa… – voz desligada aquecendo a ida, dou a mão e depois volto à minha caminhada indestinada. Sou matinal. As noites não mais pertencem ao eu. Você pode recordar as andanças de céu noturno que fazíamos juntas… mas vivo agora na paisagem perclara. Um desejo de não sei o quê…
De tentar recompor você a partir dos raios de maciça fumaça, mas efêmera sensação que me faz silenciar teus olhares, imaginários, são teus olhares…
A cidade solitária mergulha a fundo…

Não mais me pergunte, vou-me embora, me liquido já
Já me parti há muito tempo
E sai. Me deixa a nu.
Soube desde então que nossos amantes da Rua Paradiso tinham se deixado uns aos outros e portanto essa situação era insignificante. Mona, com seu bigode e seus longos cabelos, minha boina francesa e teu lápis de olho
Os amantes da Paradiso, os fúteis amantes da Rua Paradiso tinham incendiado o próprio apartamento
Seus gritos de revolta…
« Pra Zona Norte, pois lá vive a solitude que bebo »

A Esquina Fechada
As manifestações seguem um itinerário diferente, estão aqui e acolá, revoltam os jovens os muros e derramam no calçamento a cor extravasada…
A insistente jornalista tira fotos e se dispersa; ela sabe e soube sobre a demolição do abrigo que lá existia.

Pouso os pés nas asas do Mundo,
Nada me poderá destruir tão agora

Quedam as dúvidas
Quedam os ídolos
Quedam as placas
Tudo sei, tudo sinto
A multidão acelerava
Os prazeres do Incógnito
O tecido cetim caía
Sei que pulsa dentro de mim
E pulsante minha carne desaprende a recuar
E avanço avançando em Tua dança sublime-e-potente
Vozes orquestrais buzinantes, olhar-fônico, procurando, inutilmente, algo pertencente
Se me abandona faço insurgir
E minha carne esquece as triturações

A travessa
se exasperam todos os nervos
na errônea visão ondas golpeadas torpedos, bússolas, rodas de carroça
já não tenho morada
e só e vagante os barcos de lata vagam
teu grotesco corpo…
minha ansiedade somnífera
o barco vermelho anuncia
o horror!
a carcaça estava ilhada!
na contramão
o semáforo no centro da civilização
me derroto e a tua luz esguia
naquela estrada interminável
sangrenta corre a cena pelas rodovias
onde se encontra o manequim
esvaído nas ondulações
vê Aléxis descendo
o asfalto
Tua mudez
nosso desencontro
da esquina já aberta
Alexandre desce o barranco do parque

O balé dos enforcados

– Ela está de luto há 10 anos.

A insônia do alvorecer entregado ao olhar vazio da nicotina foste nascida de teu circo abandonado

« Eu fui noctâmbulo na época em que existia felicidade e acreditava que em ti […] me existia. »

– A felicidade basta inventá-la a felicidade

– Tão apaixonado!

O sonho repetido tinha o sabor de cachaça, ébrio, me revirava
Um clima violinístico pairando na fumaceira das películas na escuridão somnífera
O azul tom pairando na sala de estar
E a tv em tromboses entrando
Mão gélida na boca como que decidindo ouvir:

« A alma não dói. Você nunca doía.
Você era a dor completante –
É o espírito hostilizado que em cambalhotas se despe e faz descer à nossa garganta o óleo das frigideiras »

Como a malha que gruda em nossos corpos subindo tão alto…
Para lá poder viver.

“A frigideira virou o óleo quente para dentro da cabeça”

“Duas figuras, uma desaparecendo no assoalho cascateando revólver, a cabeça desaparecendo nas cascatas do solo empapado avermelhando”

E pelo espelho você me observava
Você me encarava atraindo a minha evasão. Não sabia viver e fiz dos trapos minha morada e da tua voz,
Manifestação em violento som

levanto
estou em vigília
se abrem as cortinas
sons da Rua em ninhos que são a cama em que estive deitada por horas e eras e milênios a passarinhar pelo interior das Avenidas em xícara de café derramado no assoalho de concreto
essas cenas em convulsão extrema devorar o Mundo, vozes, em frente às telas pintadas do universo que não basta a si e sorve a ele próprio
a fome do mundo
é preciso ter sede constante
o sentido morto
os cometas adiados
o cometa adiado encara todos os planos
um grito gestual de dor incessante
em nossa luz de incandescência e Rebelião
todas as dores dolorantes emergindo nas veias da Radicalização
a voz paralela em êxtase doloroso

[nos quadros de sentido e inapetência os rostos formam a alma revôlta
é inteiramente possível dizer algo emudecido que esteja fora do sentido linguístico nos petrificante?
num plano de faces da mesma cor é possível que exista uma alma de revólta prestes a desnortear os sentidos e nós, os afogados em escoriação da alma, estamos em busca do rosto oblíquo lapidado por anseios desesperativos]

uma comoção
capaz de tragar a interioração e assim buscar as vozes de famélico tom
a língua poética valida todas as pensações
a língua
se autodestrói inesperado
vindo do perdimento da consciência em sangue-vivo
indo na escurescência da fantasia

a fome do mundo a fome do mundo a fome do mundo a fome do mundo
é preciso morrer buscando
na sufocação o viver
nas ações onde fome e Rebelião renascem em nossos Espíritos como cometas de força imparável
o cometa adiado

amnésia ii

um grito invisível
a voz violentada
entrepassos automáticos
nada dito nem relatado
crescente indistinção entre vida e morte
a continuidade fragmentária e mesmo torturando-se inevitável prazer
a escrita falha o ser
e não é ela mesma a terapia de exorcismo
como se pensava
pensando livrar-se da escoriação somente me encontro a dor do universo construído
as tentativas de cura devem ser demonizadas ao extremo
o acabamento e o absoluto devem ser descartados como maneira de viver na sufocação

de quem se apodera e intoxica o Espírito com doçura imaterial
ingerindo letal, em uma crua tragada, o próprio destruimento

de quem se encontra na perda invisível o perfume de leveza também mortal e dali mesmo lhe surge a consciência de estar prestes a parir o sentido vivente, mas já experimentado inúmeras vezes por alguém Outro que não Nós
o vulcão, essa crescente atmosfera de embriaguez e abandono do Si

« Eu posso representar tudo, menos a minha vida, que é trágica. »

Não quero conhecer a ele
as movimentações do Abismo
o deslocamento imprevisível das notas
e então há uma transmutação das cores – existe vida
e sendo vida a música
o mundo se recompõe no instante
que desponta como navalha a rasgar docilmente
assim sei que jamais estarei sozinho
aqui
eu andava
Ela tinha andado devagar
não me sei,
viver, sem arder pela paixão do instante
você não me soube viver

A noite corria
uivavam as moitas
senão pelo instante
senão pela dissolução da imagem nas imagens perdidas
a música, sempre o clamor pela musicalidade do cotidiano
do meu defeito, da minha catástrofe constante

Me atento aos movimentos do corpo; sua oscilação facial, seus gestos.
E então confronto as duas: estou no meio, estive no meio desde sempre
você age assim, você justapõe

Eu te oferto o silêncio
não há comemoração, tampouco festa
os convidados estão marmorizados
se desmembra o lustre em pedaços
você desaprendeu a dançar
está soturna, calada
há quietude

O perfume noturno da cidade sufocada
a qual sempre esteve,
através de um matadouro doce se transformava
Em meus sonhos, em meus pensares
A cidade solitária
a tinta verde de seus morros,
palcos alados
Alamedas de um calor-de-fogo
o perfume diurno da cidade esfinge, a qual jamais deixará o seu trinado
Em meus sonhos
Em meus sonhos

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aphantasia

Lullaby

os disparos na inquietude são precisos
esta não é uma lullaby
ar frio matutino me cai sobre o granito

– você já teve aquele sonho
aquela inquietação idílica de ver-se decaída ao chão sido disparos contra a íris vazando hedionda cura para a incurável oscilação de oceanos
e na cuca tamanho rombo vermelho gota escarlate acontecendo
gotejando
gotejando
gotejando
– desta vez
[não podemos] te encontrar mais – respondeu sorrindo amarelo de estranhamento
onde você esteve (eu perdi e sempre perco você facilmente
nesse mesmo cais há um navio – igual no filme de bergman,
entro
estamos procurando as falhas e o buraco por onde me espera sair
escapou e evitei os navios por tanto tempo e ficaste aqui ficou
e lá fitando o rancor que deixei sobre a mesa encardida de cigarro e sua pelerine
a rouca entrada obstruída
se te abandona a asfixia
levanto e faço acender um abraço invisível
você nunca me permite afundar nos círculos da sua deserção
estás sempre sozinha e apedrejada e por espanto eu te imito

consegue mensurar esses acontecimentos que jamais serão descritos
aphantasia
se finca o riso alucinado nos enquadramentos do teu semblante
não tenho destreza para as falas que poderiam acalmar
foi puro explosivo das almas em trituração
e sei, quem um dia, ouvi cantar transbordando
M. me disse durante a janela do ônibus entardecendo no abismo
M. esteve no balanço a embalar a lullaby
que faz ela perder o cais porque nós dois sabemos esses momentos indefiníveis
de vagar pelo mundo embebido
amarguramento da estação laranja a sair e a entrar nos semblantes
o rosto de T. relembra a memória de um quadro expressionista
ouço a náusea do espelho
o prédio cadáver parece penetrar os óculos escuros de T. e ela lentamente observa a áurea desse universo emudecido
o meu espírito antagônico não pertence a lugar nenhum senão às batalhas que elegi como prelúdio das fantasias vestidas em mim
permanente
se me abandono significa que nunca ele esteve por completo
mensurar esses acontecimentos
 

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a voz paralela

(L. deita na cama o asco que pareço causar

tudo em mim está podre e delinquido
esforço para explicar
o ponto sem-retorno, a fala é a emoção já exausta)
não se toma de alguém a sombra diante da insuficiência

é porque não se reconhece
e não existe mais sujeição
quando na erradicação do afeto
há um momento em particular que define o aguaceiro
– desce a todo ímpeto, levando consigo as memórias
derretidas pelo calor da desesperação
– que os traumas são rios de espasmos a escorrer
tentar anular o sofrimento tempestivo que insurge
não o sei e jamais terei a totalizante sabedoria de vida da qual tanto se fala

quando pergunta finjo ter dentro a elevação das coisas, a beleza
não mata a fome – finjo compreender a origem dessa sujeição
da qual tanto se orgulha

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matar a fome apenas solapa a guerrilha febril e necessária
a voz paralela não obedece limites e aceitar esse redemoinho sangrento é a declaração de não-paz, afirmar a força destruidora nos habitante:
sucumbir às artimanhas da guerra histérica, mesmo estando em pedaços, jamais extraditar o espírito dilacerante
se comunica apenas com o desespero

a fala e sua voz e suas palavras agudas – violino ensandecido atravessando a montanha-borda
olhar-fônico reverberando picos em que o difícil encontro congela na falhura das mãos separadas

Par défaut
cenário, pensamentos

Buscando alento no que nunca se pode tocar. As respostas surgem sempre na hora em que são derrotadas as facas

– o enlevo que sente moldando as trincheiras da própria queda

assim é o quarto submerso
invólucro de vômito,
estado de sítio e aniquilação
ao virar-se vem a marteladas na cabeça a utopia impiedosa
se decide viver

então esse viver é a completa defecção
se decide morrer,

o quarto cessa a morte
torna-a tão viva e similar à vida

o desejo volta
se voltando uma vez mais e constantemente para a luz da visão
abandonando o pálido ou a sombra, pois essas duas nuances nascem do choque impossível

O que nasce no intestino não enxerga; sem olhos, afogado em lâminas, o quarto submerso jamais ouve ou come
a comida somente realça a matança que ele produz

a canalização dos sonhos triturados e o combate ao tempo
a luta pela liberação,
e, logo em seguida, o aprisionamento voluntário

O quarto submerso não é nada do que nos foi dito
nunca vai ser

O quarto submerso

En passant