cenário, diários

Os sonetos de uma madrugada mundial

Os sonetos de uma madrugada mundial

as marionetes são postas para dançar
as marionetes são lançadas para cima

A arte da palavra é a arte de ferir.
Porque para nós não nos restou sequer um farrapo; e mesmo o nada volve-se crueldade.

A palavra é percalço de sacrilégio e sacrifício, cicatriz profunda à mostra carregada por vagões de tinta.

sobrepor o mar que é fênix, que é lago de transbordamentos: anestesia impenetrável 

A palavra de ferimento se tinge nas cores do sonido nos estilhaçando o pensamento em ramos; logo de início quando em face dessa arma de cristais de extração, alimentada por seiva e fragrância e vísceras […] é sabido: deve-se perder o fígado e a beleza e as entranhas para assim alquebrar as iluminações – a ferida não é mediada por tochas tampouco estancada.

Toda [eloquente] escritura é lixo que se come do lixo e desaba no limbo da corrosão; pois bem, a poesia
quinquilharias produzidas, raciocínicas, lidas individualmente e em uma lógica digerida
quinquilharia – erupção bem-acabada por um gozo nas entranhas da palavra!
Se termina aqui a extorsão do significado e jaz nesse monte a tua decrepitude e está nesse monte a lembrança daquela viagem; às três horas de uma madrugada em transe pegamos o táxi até Santa Flora nos descendo em frente à igreja de estrada.

Uma luz curvada recai muito rapidamente por sobre o meu perfil; ao que parece os meus pés desejam me levar até o barranco onde existe, nesse exato fio da minha inexistência, uma fogueira. Não pressinto labaredas, não há quentura, nem ação; pelo etéreo descampado o olfato: há querosene, existe trepadeira terrestre se locomovendo junto das flores as quais perseguem o manancial de água eclodindo do esgoto e existe fogueira erguendo suas cinzas aos limites da minha percepção
me basta adivinhar sua fisicalidade: aprendo esse cantarolar fagulhante; me enveneno em sortilégio – ligeira violação do que parece ser humano – fumaça – gaguejar decrescente

Dotado de uma sensação escandalosa, mas retraída, sensação esta de estar sendo diluído entre as tuas mãos de concreto; o que não deve ter feito – esta encarnada mão me apaga a memória e me deita metafísica à jaula de gelo
Era assim a sua vida; dançava à noite e, ao fundo, vivaldi
não era barroca em seus atos
doía a garganta quando falava
espirrava perfume no ar a sorvê-lo
em horas minha alma voltava a se dissolver pois a aragem de outono respirando no meu roupão encarniçado

Estaríamos em cinco.
Exalava uma alienação que se entrelaça; já não dizia palavra e os outros se mantinham como que robóticos – eu era adorno do ambiente; a cadeira bamba em bambolês de arame amarrados à cintura e dançando-me eufórica temi tocar a vida em sua culminante evaporação.

Luchius tem olhos de âmbar. Enquanto me ocupo em observar seus pés – nus – Lucius termina de mastigar as ameixas; e por que eu o adorei desejando nele me transpor?
– vê nessa foto a tua negra cabeleira? – já não me inclino para você e já não lhe me quero. Olha pras estátuas! – quão raivosa sua feição é ao mirar o mármore debulhando magma.

Luchius Luchius Luchius Luchius

– Teu palavrear chulo, tua bocarra abarrotada de chumbo – que ânsia e que desternura. Eu jamais poderia ver qualquer um face a face. Eu nunca te amaria porque a ti te agrada a podridão do corpo. Eu nunca amaria a mim mesma.

derramamento
O fim crepuscular é o ápice da minha desertificação
O céu jaz em comoção extrema e as antenas da relva evaporam e ascendendo no elevamento do rasgume
voam os estilhaços das libélulas
E como tatear a beleza caquética vaga-lume em enxames
das brasas da noite
não se toca no corpo sem antes perder o próprio corpo
na afeição o desmembramento
dementia tremens
dementia tremens
lixo que se come do lixo
o ato sísmico

– Os revelamentos, senhor doutor?

– Poderíamos dizer que o enfurnado revela-se nas mais inconsequentes situações, mas aí mesmo erramos, justo que ele é uma unidade que não se descontinua no paralelismo – no espectro das vozes
É tanto mais uma vertigem que verte despedaços da paixão-que-se-escoa;
a qual lançamos à cara com sofreguidão.

Bambina Terêncio é uma atriz negra por quem sou apaixonada pela etérea entorpecentia – embora não exista nada em comum entre nossa amizade se fragmentando. O cabelo de Bambina é curto – e no amanhecer de toda vida nós nos encontramos no entroncamento da Faixa Velha entrando na Rodoviária rumando avenidas abaixo;
Bambina traz consigo Amélia, alta e fotógrafa punk – Amélia tem óculos escuros tampando a vista dela habitualmente.

– Quem é?
– Não o conheço.
– É necessária a operação.
– Não quero que me leia o corpo!

As sentenças
Decaio como quem sonha eletrocutado numa cadeira elétrica;
dizem que preciso, antes de compor o retrato do túnel em seu derramamento, ser podado diretamente extrínseco nas asas – ou que me retirem violentamente os nervos, que me firam a patela
Na espúria tentativa de ser outro

A pancada nos miolos –
eu está no mundo
eu pensa, eu age, eu sabe escrever, eu sabe cultura

Melhor teria sido; quanto melhor ter ido na direção das águias que se sopram para longessonante da verdade consciente
me afogam em civilização

Você ajudar-me-á todavia
Por cozimento lento nos sons

Jamais hei de esquecer tão despedaçada alegria
não serei capaz de escrivinhar novamente
nem nunca, jamais
tivesse um sonho; se tivéssemos sonhado talvez no entanto
não me é nada e
senão sonhos – algazarra e folias
me farei presente apenas e sempre em vislumbre
clarões fotográficos atingindo o solo em labaredas de puro sono
flechadas e míssel e arranhaduras

– Contra a carne e contra o meu chão e contra meu antebraço, os mísseis.

Porque as palavras já bastam a mim
E o delírio ainda por vir…
E o delírio ainda por vir…

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aphantasia

Lullaby

os disparos na inquietude são precisos
esta não é uma lullaby
ar frio matutino me cai sobre o granito

– você já teve aquele sonho
aquela inquietação idílica de ver-se decaída ao chão sido disparos contra a íris vazando hedionda cura para a incurável oscilação de oceanos
e na cuca tamanho rombo vermelho gota escarlate acontecendo
gotejando
gotejando
gotejando
– desta vez
[não podemos] te encontrar mais – respondeu sorrindo amarelo de estranhamento
onde você esteve (eu perdi e sempre perco você facilmente
nesse mesmo cais há um navio – igual no filme de bergman,
entro
estamos procurando as falhas e o buraco por onde me espera sair
escapou e evitei os navios por tanto tempo e ficaste aqui ficou
e lá fitando o rancor que deixei sobre a mesa encardida de cigarro e sua pelerine
a rouca entrada obstruída
se te abandona a asfixia
levanto e faço acender um abraço invisível
você nunca me permite afundar nos círculos da sua deserção
estás sempre sozinha e apedrejada e por espanto eu te imito

consegue mensurar esses acontecimentos que jamais serão descritos
aphantasia
se finca o riso alucinado nos enquadramentos do teu semblante
não tenho destreza para as falas que poderiam acalmar
foi puro explosivo das almas em trituração
e sei, quem um dia, ouvi cantar transbordando
M. me disse durante a janela do ônibus entardecendo no abismo
M. esteve no balanço a embalar a lullaby
que faz ela perder o cais porque nós dois sabemos esses momentos indefiníveis
de vagar pelo mundo embebido
amarguramento da estação laranja a sair e a entrar nos semblantes
o rosto de T. relembra a memória de um quadro expressionista
ouço a náusea do espelho
o prédio cadáver parece penetrar os óculos escuros de T. e ela lentamente observa a áurea desse universo emudecido
o meu espírito antagônico não pertence a lugar nenhum senão às batalhas que elegi como prelúdio das fantasias vestidas em mim
permanente
se me abandono significa que nunca ele esteve por completo
mensurar esses acontecimentos
 

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a voz paralela

(L. deita na cama o asco que pareço causar

tudo em mim está podre e delinquido
esforço para explicar
o ponto sem-retorno, a fala é a emoção já exausta)
não se toma de alguém a sombra diante da insuficiência

é porque não se reconhece
e não existe mais sujeição
quando na erradicação do afeto
há um momento em particular que define o aguaceiro
– desce a todo ímpeto, levando consigo as memórias
derretidas pelo calor da desesperação
– que os traumas são rios de espasmos a escorrer
tentar anular o sofrimento tempestivo que insurge
não o sei e jamais terei a totalizante sabedoria de vida da qual tanto se fala

quando pergunta finjo ter dentro a elevação das coisas, a beleza
não mata a fome – finjo compreender a origem dessa sujeição
da qual tanto se orgulha

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matar a fome apenas solapa a guerrilha febril e necessária
a voz paralela não obedece limites e aceitar esse redemoinho sangrento é a declaração de não-paz, afirmar a força destruidora nos habitante:
sucumbir às artimanhas da guerra histérica, mesmo estando em pedaços, jamais extraditar o espírito dilacerante
se comunica apenas com o desespero

a fala e sua voz e suas palavras agudas – violino ensandecido atravessando a montanha-borda
olhar-fônico reverberando picos em que o difícil encontro congela na falhura das mãos separadas

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