fragmentos

A capitania do oblívio

Investigações de uma vida furtiva

– Sofrerei o desalento e a minha existência será grave, ou não será coisa alguma; sofrerei o desumano e mais corrompido estado de mergulho que se possa talhar na pele. A vida? Me perguntaste outro dia; não há canção que lhe faça arrefecer as fincadas. A vida é gangrena que coexiste; é gangrena que se alastra a subir e, neste epilepsíaco confronto, a paixão e a alegria tardam mesmo que arribem.

Me diria Valéria… Ou talvez Vanusa Aldebarã, sete anos mais cedo.

Faz demasiado vendaval hoje; registro em meu diário o diário de Francisca e subtraio os segredos que não virão à tona desde aquele evento silvestre; vou até a varanda aberta para o lamaçal que é Terracota. Dolores, companheira de Francisca, acena para mim a segurar o machado brilhante: mas a cesta de ervas vem sendo trazida pela capitã montada no azul potro a léguas de distância daqui. Gostaria de ouvir agora as histórias de araque de meu irmãozinho…
À margem da sombra da maria-fumaça…
Recrio aquilo que talvez possua fisionomia.

– Senhora, quer que eu segure o Soslaio?

– Vai chamar Valério antes de tudo.

– A dona Bambina está fora de Terracota por meses pois foi à capital se apresentar no grande teatro; e seu marido na semana anterior ao feriado. A senhora sabe a verdade.

– Vai buscar Cibele… Eu vou esperar Denis recolher a pedraria. É verdade o que andam a dizer sobre a caravana dos mímicos?

A persistência aparência que não sucumbiu às intemperanças da minha sem-jeitura; o que deixei de explicitar, quando calei e quando pude lhe exaltar.

– Denis detesta o meu toque em seus ombros quando está arqueado; Denis ele próprio existe verdadeiramente? Apenas visões do meu peito entediante. Eu o quero porque me entristeço sem pé nem cabeça.

Os mímicos voltam às vilas uma vez mais; o pavimento das estradas não se alargou um centímetro e o arvoredo das estâncias cresce, grande é o oblívio. Terracota está no leito mumificado e no luto o evento aquele inominável. Francisca diz para levantarmos as tendas do quintal e remover do bosque o espanta-corvo; andamos por córregos e garimpos…

Consciência de ter-se originado de uma herança; eu recuso essa herança. Eis quem fala e eis quem admite ouvir. Quero e desejo do fundo de minha indisposição – impoder da fala […]

Não houve quem não sofresse pela aridez da palavra. A carícia, a agitação das enervuras, o descontento, a impossibilidade de atingir-se e a impossibilidade de ser atingida; o contato humano é prematuro e portanto você acredita viver falho. Você não acredita na paixão e nós não acreditaríamos na quantidade de casos.

– Você tira o sentido mas o devolve quando volta a se apaixonar por ninguém senão pela obturação que te incutem.

– É outra coisa. Quero dizer: perco a vontade de dizer; regurgito a tua indolor fechadura.

– Pretextos existem desde a eternidade.

– Basta! Ficarei sozinha e tua tirania termina já. Recuso mastigar mais uma só frase e mais uma só fenomenologia.

Desse modo me disse na carta que arrivou ontem; ele me disse; os doces que tinha experimentado eram os melhores doces de sua vida. Esteve no Uruguai e decidiu seguir polo adentro suicidando-se no barco a vela. Uma overdose, sim, um formigamento se me apodera. Aonde vou? Se vivo e se viverei preciso conhecê-lo de novo e certamente será como se fosse hoje.

– E você não soube? Depois que o seu filho foi-se Célia se deixou morrer à beira da janela; a friagem lhe enrijeceu a vontade.

– A capitã não vai permitir a entrada da caravana em sua propriedade.

– Que se vão! Que partam os seus carros de ratazanas!

Há muito que não se houve canção nas pradarias; mas lá está o séquito ao redor dela; Francisca diz que é puro desatino abandonar as fazendas pois não existe mais mundo para nós para além dos moinhos que se movem pelas plantações, à meia-noite, se movem pela plantação de ameixas.

Ao meio-dia jogamos na lavoura.

A vida continua desmemoriada…
Volátil pandorga…

– Deve ir-se embora toda a sua gente de Terracota. Que caia a devoção dada a esse lugarejo. Se Vanusa precisar ser deposta não haverá empecilho por parte de nossos artistas, de nossos rejeitados.

Do outro lado da cozinha, Dolores não se atreve a mover observações acerca do discurso de Cavalcante. Ela está de acordo, como esteve desde o nosso desembarque.

– Antonina Aldebarã vem ao resgate de suas crianças, raptadas por Terracota.

– Lhes feche a entrada da casa! – Vanusa iria ordenar.

– Impossível! Estão às portas do vale. – Os lacaios poderiam responder…

A sua incapacidade para entrever a si mesmo; a nossa chegada e o nosso embarque se mantêm na sua mais cruenta indiferença.

Os pés de Octavio parecem levemente chamuscados, no entanto, Octavio se lava na cachoeira do garimpo. Ele convida a mim para me juntar à orgia, mirando o meu esqueleto coalhado na abertura da minha antipatia:

– Sendo menino, ainda tens cara de menina, e quando menina…

– Serei.

Eu seguirei Antonina porque ela está para criar algo majestoso.
Uma espetacularização de Terracota que não se inibe – os Aldebarã haviam mandado incendiar o circo dos mímicos, dezessete anos atrás, quando eu seria menina e tinha vindo do sul mais adiante.

– Você conhece as irmãs Aldebarã? Gostaria de lhes falar sobre a companhia deixada por seus pais, mortos no Uruguai há três dias.

Octavio e Denis estão indo abrir a ponte de ferro; Denis pretende dar invisibilidade à minha presença.
Eu os peguei declarando-se amor. Eu os peguei planejando um complô.

– Contra mim? Contra a fazenda? Diz imediatamente!

– Sem nomes… Apenas datas para a historiografia. Você nos ensinou, não? Apenas datas.

– Diz o nome destes traidores.

– Vanusa. Vanusa Aldebarã!

Na capital seríamos alguém; Octavio e Cibele e Denis voltariam à esgrima. Dolores e Francisca retomariam a editora abandonada às pressas no desancamento de nossa destinação.
E quanto a mim e a Valério…

– Dias atrás alguns emissários vieram à procura da capitã Aldebarã para que o oblívio fosse finalmente desprotocolado.

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aphantasia

Lullaby

os disparos na inquietude são precisos
esta não é uma lullaby
ar frio matutino me cai sobre o granito

– você já teve aquele sonho
aquela inquietação idílica de ver-se decaída ao chão sido disparos contra a íris vazando hedionda cura para a incurável oscilação de oceanos
e na cuca tamanho rombo vermelho gota escarlate acontecendo
gotejando
gotejando
gotejando
– desta vez
[não podemos] te encontrar mais – respondeu sorrindo amarelo de estranhamento
onde você esteve (eu perdi e sempre perco você facilmente
nesse mesmo cais há um navio – igual no filme de bergman,
entro
estamos procurando as falhas e o buraco por onde me espera sair
escapou e evitei os navios por tanto tempo e ficaste aqui ficou
e lá fitando o rancor que deixei sobre a mesa encardida de cigarro e sua pelerine
a rouca entrada obstruída
se te abandona a asfixia
levanto e faço acender um abraço invisível
você nunca me permite afundar nos círculos da sua deserção
estás sempre sozinha e apedrejada e por espanto eu te imito

consegue mensurar esses acontecimentos que jamais serão descritos
aphantasia
se finca o riso alucinado nos enquadramentos do teu semblante
não tenho destreza para as falas que poderiam acalmar
foi puro explosivo das almas em trituração
e sei, quem um dia, ouvi cantar transbordando
M. me disse durante a janela do ônibus entardecendo no abismo
M. esteve no balanço a embalar a lullaby
que faz ela perder o cais porque nós dois sabemos esses momentos indefiníveis
de vagar pelo mundo embebido
amarguramento da estação laranja a sair e a entrar nos semblantes
o rosto de T. relembra a memória de um quadro expressionista
ouço a náusea do espelho
o prédio cadáver parece penetrar os óculos escuros de T. e ela lentamente observa a áurea desse universo emudecido
o meu espírito antagônico não pertence a lugar nenhum senão às batalhas que elegi como prelúdio das fantasias vestidas em mim
permanente
se me abandono significa que nunca ele esteve por completo
mensurar esses acontecimentos
 

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a voz paralela

(L. deita na cama o asco que pareço causar

tudo em mim está podre e delinquido
esforço para explicar
o ponto sem-retorno, a fala é a emoção já exausta)
não se toma de alguém a sombra diante da insuficiência

é porque não se reconhece
e não existe mais sujeição
quando na erradicação do afeto
há um momento em particular que define o aguaceiro
– desce a todo ímpeto, levando consigo as memórias
derretidas pelo calor da desesperação
– que os traumas são rios de espasmos a escorrer
tentar anular o sofrimento tempestivo que insurge
não o sei e jamais terei a totalizante sabedoria de vida da qual tanto se fala

quando pergunta finjo ter dentro a elevação das coisas, a beleza
não mata a fome – finjo compreender a origem dessa sujeição
da qual tanto se orgulha

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matar a fome apenas solapa a guerrilha febril e necessária
a voz paralela não obedece limites e aceitar esse redemoinho sangrento é a declaração de não-paz, afirmar a força destruidora nos habitante:
sucumbir às artimanhas da guerra histérica, mesmo estando em pedaços, jamais extraditar o espírito dilacerante
se comunica apenas com o desespero

a fala e sua voz e suas palavras agudas – violino ensandecido atravessando a montanha-borda
olhar-fônico reverberando picos em que o difícil encontro congela na falhura das mãos separadas

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