cenário, pensamentos

Buscando alento no que nunca se pode tocar. As respostas surgem sempre na hora em que são derrotadas as facas

– o enlevo que sente moldando as trincheiras da própria queda

assim é o quarto submerso
invólucro de vômito,
estado de sítio e aniquilação
ao virar-se vem a marteladas na cabeça a utopia impiedosa
se decide viver

então esse viver é a completa defecção
se decide morrer,

o quarto cessa a morte
torna-a tão viva e similar à vida

o desejo volta
se voltando uma vez mais e constantemente para a luz da visão
abandonando o pálido ou a sombra, pois essas duas nuances nascem do choque impossível

O que nasce no intestino não enxerga; sem olhos, afogado em lâminas, o quarto submerso jamais ouve ou come
a comida somente realça a matança que ele produz

a canalização dos sonhos triturados e o combate ao tempo
a luta pela liberação,
e, logo em seguida, o aprisionamento voluntário

O quarto submerso não é nada do que nos foi dito
nunca vai ser

O quarto submerso.

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En passant
pensamentos, sumário

Novos textos, ensaios e obras; às vezes similares, às vezes distintos:

eu próprio me debato contra as minhas autocríticas pré-estabelecidas, ah, eu me debato contra algo que me é naturalmente prazeroso, sádico e vil! uma mélange de enredos talvez naïf, obviamente experimentais, com uma predominância à abstração: talvez formalistas

 

CARRO-CHEFE:

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avessas

ora avanço, ora estremeço e morro; nunca irei ceder – morro, mas morro em plena integração; escrevo pois me sinto sufocado, escrevo pois quero avançar sobre a neblina acachapante acima do prédio que está sempre em chamas – ardendo sem exceção; ensaio porque sangro de qualquer forma e, se sangro, não morro de lassidão – ensaio pois talvez e talvez consiga delinear um sentido perante a absurdidade que é ser e existir ao mesmo tempo – demolir todas as certezas e depois reconstruí-las em uma estrutura insone, sonora e subjetiva, que alcance quem puder e quiser.  quem ousar se esvanecer e liberar a si mesmo junto aos meus escritos; exijo apenas esta sentença: não haverá identidade firme, esqueça!, esqueço, não haverá identificação; é um quebra-cabeça cuja fabricação personalística se desmancha como glacê, e integra inúmeras personagens como as placas tectônicas.

jamais serei lido, ah, a literatura é uma múmia antiquada – eu sou seu filho patético e torpe, odeio a revolução – abomino tudo o que se espelha no futuro, sufocando as perspectivas do presente; um dia todos irão morrer, um dia eu vou morrer, e isso é aterrador.

ah, Lírio, o dia ensolarado me faz querer gritar

 

 

a bordo

En passant
prosa

naivve

de repente, o reflexo desaparece. vozes imponentes se impõem sobre a névoa marítima. o grande cérebro, o aríete que navega, forçando a entrada – traçando o suplí­cio – um a um: ah, um a um!

a pêssego maçã, tangerina romã
de lavanda sanguínea e fósforos
madressilvas efervescentes, óleos de alucinação, torrentes,

cortantes – ele, com a boca seca, entra a fora, sai a dentro – cava sonhos e oblitera terrenos!

esses tripulantes tomam de assalto a embarcação, piratas sádicos, santos maniqueístas, aberrações racionalistas e ápices tangerínicos de vaidade, tensão e aparência.

devoram romãs e repentem a si mesmos, afirmam tempestades
dar-nos-ia o consentimento

destroem os barcos de cantalupo e sândalo, cetim, ramos e remos de Armadura carmim: lançados a alto-mar: iremos nos afogar.

 

põem assim, desmancham, queimam a pele peluda da carne osso, e ossatura
mim, mim, mim, cintura
corrigir a postura
põem em causa, abraçam carapaça
tortura a carcaça
tropeço,
quando Ela exigiu o avesso – determinou aceitar todavia Ele não consentiu
oco
cada mofo, corpo, é-lhe dado um partitivo ocre e vermelho e negro e ácido
um a um – um soco no ventre!

O navio que jamais navega

En passant
pensamentos

AnneSexton.png
tem acontecido, ultimamente, uma grande evolução da minha escrita poética. o que era parco de sentido verdadeiro tornou-se mais amplo e talvez mais sólido. mesclando o confessional dos poetas norte-americanos, a dor e satanismo de cruz e sousa e o sórdido repulsivo à carcaça humana de monsieur augusto dos anjos eu me aprimorei. há caminhos que requerem sacrifícios e o meu último destinou-se à expulsão dos meus sonhos oprimidos. chega de idealização inútil, chega de fantasias melodramáticas relacionadas a pessoas que não merecem tais pulsões. sim, pulsões. sexuais? talvez. um novo « eu » está para ser parido. um eu-estável. me cansei das minhas instabilidades que só fazem ruir o alicerce das minhas relações de longa data. saúde! à notre santé!

poésie // mental illness

En passant